Começando pelo início

Olá, sou Rafael "Shu" Goulart, e este é meu repositório de músicas/letras/cifras/mp3, poesias, histórias...
Além disso junto aqui tutoriais, anotações e dicas diversas de informática, em especial Linux e softwares livres, que é o que eu faço para ganhar a vida.
E, claro, de quaisquer coisas que vierem à cabeça escrever... reflexões e pensamentos tolos sobre a vida...

Utilize o menu para navegar... e boa sorte!!

Palmas, Salão do Livro e o Teatro Mágico

Terça-feira, 13 de Maio de 2008 -- em Poesias e Textos
» Sem Comentários    » Deixe um comentário!!

Voltando de Palmas, Tocantins, onde fui assistir ao show do Teatro Mágico acompanhado de Mag(nólia) e da Alana (que entrou de gaiato mas garantiu nossa hospedagem “digrátis”), tinha a intenção de falar do show e o quanto seria maravilhoso. Mas não dá pra falar disso apenas - apesar do show ter sido realmente muito legal. A experiência foi maior do que isso…

Bom, começo pela cidade. Conheci Palmas de passagem em janeiro, fiquei duas horas de madrugada na rodoviária aguardando o ônibus para Barreiras (vindo de Balsas no Maranhão). O que senti daquele pequeno translado de ônibus é que a cidade era um lugar onde tudo era longe, ainda com um monte de coisas a construir.

Palácio de Governo

Isto não é equivocado. Realmente, uma cidade planejada, tudo longe… mas em grande parte plana, com coisas bonitas, e num passeio com nosso anfitrião Mauro (que gentilmente deu uma de cicerone e mostrou até o outro lado da represa) pude ver que é uma cidade cheia de atrativos, arborizada, com um trânsito fluente (que vai permanecer um bom tempo por conta das avenidas largas e bem planejadas)… uma capital super agradável. Agora… Quando eu e Mag fomos achar o local do Salão do Livro, onde seria o show do Teatro Mágico… aí nosso queixo caiu. Que local lindo a praça dos Girassóis e todos os edifícios do governo tocantinense, jardins cuidados… o palácio em frente ao Salão do Livro é maravilhoso.

Salão do Livro Tocantins

Ah… o Salão do Livro. Mag ficou feliz de que fosse um evento desses, ela adora, eu também. Mas… talvez para os habitantes da cidade já haja o costume, mas para quem vem de fora… a estrutura impressiona e MUITO. Montada exclusivamente para o evento, um imenso pavilhão em forma de toldo, climatizado, com piso de borracha, praça de alimentação, estandes e mais estandes, vários shows e palestras gratuitos, tudo NO HORÁRIO, nenhum tumulto… várias coisas legais acontecendo, espaço para crianças, espaço para adultos, discussões…

Homem Sovaco

Depois de assistirmos ao show do Teatro Mágico circulamos pela feira e tentamos entrar no espetáculo do Casseta e Planeta em vão - uma fila imensa não nos deu chance. Continuamos então passeando entre livros, nos deleitando e resistindo à tentação de acabarmos com nossas inexistentes economias em tantas tentações literárias. Mas também passavam piratas, moças com vestidos diferentes, para apresentações infantis. Eis que passa um rapaz numa malha vermelha com um capacete prata lembrando o Ultramen. Com um “S” no peito. O parei e perguntei quem era. “Homem Sovaco”, me respondeu. Retruquei: uai, disfarçado de desodorante (o capacete só me fazia pensar nisso…) “Homem Sovaco”, me retrucou. Mais adiante tirei uma foto dele, que gentilmente fez pose de super-herói.

Ainda tive oportunidade de parar num estande de “tudo por três reais” e ao ouvir o comentário de um rapaz sobre uma revista TEX tive a agradável oportunidade de bater um papo sobre Tex, Kit Carson e o resto da “gangue”, além de relembrar o inigualável Groo (site oficial e na wikipedia em português). O rapaz “herdou” revistas do pai e do avô e falava entusiasmado… nossa, boas lembranças.

Cansados, sem possibilidade de assistir o Casseta e Planeta, entramos no “café cultural”, um ambiente bem no meio do salão, isolado acusticamente, todo em madeira, com uma platéia e um palco. Entramos na expectativa de descansar ouvindo uma música, mas estava passando um filme… estranho… até que percebemos que eram diversos trechos de filmes onde se contavam histórias. Olhas na programação: “Café Literário Grego”. Hum… Era o início de uma mini-palestra (ou o final…) de um rapaz de São Paulo que faz um trabalho de contação de histórias em hospitais. O que parecia um chato evento cabeça mostrou-se um momento muito agradável com um contador de histórias (Ilan Brenman)… ele falou de uma experiência muito legal num hospital de São Paulo onde ele e voluntários contam histórias para recém-nascidos e os resultados positivos disto… e então foi contar a história da Odisséia, coisa que eu adorava na juventade apesar de um tanto esquecida. O jeito gostoso e “moderno” de contar fez-me ter vontade de ler novamente.

Café cultura 01

Café cultura 02

Muito legal. E tudo terminou com um pocket show de uma cantora chamada Juliana Maia… fiz questão de ver de perto o percussionista que tocava um cajón (eita, precisa arranjar grana para comprar um…), ele tinha uma mal-formação numa das mãos, o que não o impedia de segurar com competência a percussão do pequeno grupo. Que também tinha um violinista excelente, além da agradáve voz da protagonista. Outra boa surpresa.

Comendo Churros

No final, ainda pude curtir um churros (não é como os de minha terrinha Santa Maria, RS, mas deu pra matar a saudade). Ainda dá para curtir se você estiver lá ou na região. Veja a programação no Site do IV Salão do Livro de Tocantis (de 09 a 18 de maio).

Ok, agora vamos ao Teatro Mágico.

Eu e Mag filmamos, tiramos fotos, dançamos… nos deleitamos com os acrobatas… com o percussionista traduzindo trechos do show em Libras… com o entusiasmo de pessoas que nem sabiam o que iriam assistir… com o os músicos andando no meio do público… em ver tanta gente jovem curtindo algo tão bom… um fã clube pequeno e vibrante juntou-se a várias outras pessoas.

Uma coisa engraçada é que em alguns materiais de publicidade o espetáculo constava na programação infantil (nada demais… afinal as crianças que foram adoraram).

Mas o mais agradável foi depois do show.

Apesar de eu não ter perfil de “tiete” (e nem perto daqueles adolescentes naturalmente enlouquecidos com o pessoal da trupe) queria tirar algumas fotos (mas não comigo, não tenho esta preocupação) e, quem sabe, conversar com os membros da trupe. Bom… eles saíram um a um, aos poucos (atitude sábia). Assim, quando o povo terminava de sugar um, chegava o outro, até que, claro, por último, chegaria o Fernando. Fui tirando fotos deles com os outros, sem atrapalhar a tietagem, até que consegui conversar com o tecladista. Extremamente simpático - aliás, TODOS. Ele comentou que o Fernando ficava sempre até esvaziar, então quem tivesse paciência poderia ter mais tempo. Enquanto esperava, acabamos eu e Mag puxando papo com um senhor de cabelos grisalhos, camisa azul, com um jeito meio estupefato… seu Antônio, de Santos, que estava a trabalho na cidade e entrou por acaso no Salão do Livro e ainda mais por acaso no show do Teatro Mágico. Ele comentou:

Teatro Mágico - Seu Antônio, Gabi e Rafael

“Quando vi aquele povo pintado pensei: poxa, entrei aqui para ver palhaçada… mas quando os vi recitando Fernando Pessoa pensei: palhaço não fala em Fernando Pessoa! E fiquei, e me encantei, eles são fantásticos, acabei comprando um CD, peguei autógrafo, nunca me vi fazendo isso!”

Isto é o que causa o Teatro Mágico.

Com o esvaziamento do pessoal, tivemos contato com Gabi, a acrobata. Absurdamente simpática, nos deu atenção, conversou com seu Antônio, que ficou visivelmente encantado, tirou foto conosco (Mag me convenceu a tirar aquelas fotos clássicas de tiete), e depois ela foi dar atenção a uma criança que estava com o rosto pintado (descobri depois que estavam pintando o rosto das crianças no Salão do Livro, muito lindas). Então pudemos falar com o Fernando, uma tranqüilidade, contei a ele que estive na rádio FM em minha cidade dois dias antes e cantei ao vivo uma música do Teatro Mágico, me perguntou qual é, disse que tinha um site com minhas composições e ele disse: “Precisamos trocar esta figurinha…”

Teatro Mágico - Seu Antônio, Gabi e Rafael

Tiramos fotos “tiete-style” novamente, e então a sensação de que tudo valeu a pena veio: eles são o que são no palco, e fora dele. Todos. Apesar da atenção centrada naturalmente em Fernando, “cacique” da tribo, percebe-se nos arranjos (diferentes do que ouvi em todas as fontes que tive acesso) que são uma irmandade aberta, perguntam o que cada um achou, o que prendeu ou chamou a atenção, ou o que mais se gostou… Nota-se nos olhos de TODOS a satisfação em atender, conversar, trocar idéias.

Sei que são pessoas comuns, com defeitos, que vão ao banheiro, mas deixam a gostosa sensação de que ainda vale a pena lutar por boas causas…

Acho que os fãs terminaram o espetáculo da forma mais adequada: um coro de “obrigado, obrigado”.

Obrigado, Trupe do Teatro Mágico.

Não Sei

Domingo, 20 de Abril de 2008 -- em Poesias e Textos
» Sem Comentários    » Deixe um comentário!!

Rafael Goulart - 19abr2008 00:30h

Descobri, estupefato
Que já não sei

Não sei se leio a bula
Pois se leio
Não sei se tomo o remédio

Não sei se tomo banho
Pois se tomo
Não sei se lavo a alma

Não sei se lavo a louça
Pois se lavo
Não sei deixar de sujá-la

Não sei se ouço música clássica
Ou se ligo o rádio

Não sei se leio uma enciclopédia
Ou um almanaque

Não sei bem o que penso
Logo, não sei bem como existo

Não sei de tudo
Mas também não sei de nada

Não sei dos outros
Mas também não sei de mim

Não sei da vida
Mas também não sei da morte

Descobri, e ainda mais estupefato
Que nunca soube de nada enfim

E, a bem da verdade
Não saber não me desmerece

Já nem querer saber
Que nada se sabe
Isto sim é crime
Hediondo e inafiançável

Pois o verdadeiro aprendiz
Só nasce e cresce
De sua própria ignorância

Descobri então
Ainda mais feliz que estupefato
Minha ignorância

Vinícius (Carta para Yoñlu)

Quarta-feira, 16 de Abril de 2008 -- em Cartas
» Sem Comentários    » Deixe um comentário!!

veja também para esta música... » letra » mp3

Nestas minhas andanças pela internet encontrei a história de Vinicius Gageiro Marques. Ele era um garoto gaúcho, 16 anos, de uma família com boas condições, passou parte da infância na França onde a mãe fez pós-graduação, era fluente em inglês e francês, estudava música e era um superdotado.

Mas ficou a princípio conhecido não pelo seu talento musical, mas por uma situação trágica: suicidou-se aos 16 anos (em 2006) após pesquisar como fazê-lo na internet, tendo inclusive conversado pouco antes num bate-papo pedindo orientações. Infelizmente, somente após sua morte seus pais encontraram seu verdadeiro tesouro: um computador cheio de músicas que ele mesmo compôs e gravou, diversas delas em inglês, além de fotos e gravuras.

Vinícius tinha um “avatar”, por assim dizer, na internet: Yoñlu, e se apresentava com 26 anos. O que não era difícil de acreditar, pois tinha uma cultura imensa, não apenas musical. Mas, como muitos adolescentes superdotados, não encontrou seu lugar aqui e acabou tirando a própria vida.

Logo que conheci sua história, baixei suas músicas (organizadas por fãs) e fiquei muitíssimo impressionado: não cabe aquilo num garoto de 16 anos. Simplesmente ele tinha muito mais “idade” do que demonstrava, e suas angústias ficaram gravadas em músicas fortes, carregadas de melancolia e experimentalismo… na minha singela opinião, creio que ele simplesmente não tinha maturidade emocional para comportar o que enxergava no mundo… divagações, não temos como saber seus porquês. Mas deixou tudo isso registrado sob a forma de músicas impressionantes.

Talvez as músicas dele não agradem a todos (ninguém agrada), mas ele me marcou muito, em especial por algo muito comum: muitos, mas muitos adolescentes MESMO passam por angústias semelhantes, e também fui um desses. Então, senti-me motivado a fazer-lhe uma singela homenagem, independente da qualidade que tenha.

Tenho sentido vontade de escrever “cartas cantadas” a pessoas, íntimas ou não, e esta foi a primeira.

Quem quiser conhecer mais sobre a história do Yoñlu, visite sua comunidade no Orkut

Vinícius (Carta para Yoñlu) [mp3]

Quarta-feira, 16 de Abril de 2008 -- em MP3
» Sem Comentários    » Deixe um comentário!!

veja também para esta música... » letra

Queria gravar logo esta música… ao todo, creio que gastei umas 3 horas gravando.

Eu passo um tempo afastado dos instrumentos (baixo, guitarra) e sem cantar e já sinto a diferença. Mesmo assim, queria registrar logo esta música.

Fiz uma bateria simples no Hydrogen, gravei uma guitarra base com modulação, a solo (simples, simples) com um pouco de distorção para ter mais peso, meu velho amigo baixo um pouco mais elaborado (nossa, fazia dias que não tocava, doeram meus dedinhos!!), e espero ter colocado a emoção devida… mas ainda tem alguns erros. Vai assim, daqui há alguns dias eu corrijo e regravo os erros.

MP3 - Rafael Goulart - Vinícius (Carta para Yoñlu)

Rafael Goulart - Vinícius (Carta para Y

Vinícius (Carta para Yoñlu) [letra]

Quarta-feira, 16 de Abril de 2008 -- em Letras de Músicas
» Sem Comentários    » Deixe um comentário!!

veja também para esta música... » mp3

Rafael Goulart - 14ABR2008 - 00:25h

O que tenho pra dizer
Não é muito e sei que não
Vai mudar o que já foi

Muito tarde pra você
Que partiu sem acenar
Nem notar o que deixou

Esta história tão chocante
De uma mente assim brilhante
Que jamais achou no mundo
Um local para descansar

Uma angústia verdadeira
Transparente em tal maneira
Que parece me atravessar

Será você em meu lugar?

Se eu pudesse retornar
Ter a chance e lhe contar
Só um pouco sobre mim

Poderias se tocar
Facilmente constatar
Todos fomos, somos… um pouco assim

E sentir-se desgarrado
Incompreendido, mal-amado
Mesmo no conforto
De um bom lar

Já faz parte desta idade
Nesta ou em qualquer cidade
Tanta gente igual vais encontrar

Será você em meu lugar?

O que tenho pra dizer
Não é muito e sei que não
Vai mudar o que já foi

Só me resta agradecer
O que você nos deixou
Pra pensar no que é melhor

E esta forma tão chocante
Que esta mente assim brilhante
Encontrou pra nos
Fazer lembrar

Que se um coração é forte
Nem a sorte, nem a morte
Nem estrelas podem apagar

Será você em meu lugar?
Será você em meu lugar?
Será você em meu lugar?
Será você?

Tempo de Espera

Sexta-feira, 11 de Abril de 2008 -- em Poesias e Textos
» Sem Comentários    » Deixe um comentário!!

A vida moderna nos fez desaprender a esperar. O ritmo louco, os prazos curtos, a moda ou a imposição de aproveitar a vida ao máximo, o “curtir cada instante” nos acelerou tanto… que esperar tornou-se sinônimo de perda de tempo, de passividade. Intervalos entre atividades são preenchidos com outras atividades. Ter uma manhã livre, um tédio, principalmente se estivermos “presos” ou ilhados.

Hoje me senti assim. Vim para Luís Eduardo Magalhães considerando um ritmo em que não teria tempo livre, e na manhã de sábado iniciaria um curso. Mas adiamos seu início para a próxima semana. E agora? Para evitar carregar peso, não trouxe nenhum livro ou material para estudar. No início, bateu-me o “pavor”; depois acabei aceitando a situação. Assisti TV até ter sono, despertei às 8h para não perder o café do hotel. Depois, agüentei o terrível narrador da F1 (nem vou colocar o nome para não fazer propaganda dele) e zapeei para a TVE Bahia, onde assisit dois programas que já havia visto “por cima” e então pude assistí-los integralmente, pois não tinha nada mais o que fazer…

Mesmo assim, ainda havia um outro “problema”: o que fazer depois do almoço? 1h, 1:30h de espera, sentado num restaurante. Almocei com calma (raro nestes dias…), peguei um papel e pus-me a exercitar minha (in)capacidade de desenho (adoraria desenhar, mas não é minha praia). E então restou-me escrever. Componho escrevendo no papel, mas textos… a idéia de ter que passar a limpo me cansa… mas, com tempo “sobrando”…

Acho que desta experiência, que é diferente de estar sozinho apenas mas no seu meio, entre seus livros, músicas, computadores, tirei a seguinte lição: esperar é estar na obrigação de fazer companhia para si mesmo.

E correndo o risco de descobrir que não somos assim tão boa companhia.

O Velho e a Chalana

Segunda-feira, 24 de Março de 2008 -- em Um novo sol
» Sem Comentários    » Deixe um comentário!!

veja também para esta música... » letra » mp3

Meu pai era violeiro. Cresci sempre vendo alguém chegar lá em casa - ou pedindo para ele tocar, ou o “arrastando” para um churrasco, uma festa, o que fosse… e lá ia ele com seu violão.

Era violeiro sem um tostão no bolso, quando arrebentava uma corda ele literalmente dava um nó… isto não cheguei a ver, só ouvir falar. Não tinha tempo ruim, sempre ponto a tocar. E assim os amigos o viam: o velho Gegê, violeiro, cantador…

Meu pai mesmo fez sua certidão de nascimento quando foi alistar-se no exército. Apesar de meu avô ser Juvenal Goulart Dias, meu pai registrou-se com o sobrenome Goulart; assim ficou Getúlio Fagundes Goulart, e não Dias… assim ganhamos um sobrenome bem mais charmoso (apesar da eterna pergunta se somos parentes do Jango… eu costumava brincar que não tinha a orelha cortada - um filho dele foi reconhecido por conta desta característica…). Já no exército andava com seu violão animando as festas.

Meu pai trabalhou num cinema. Não sei bem qual a sua função, mas isto foi no final dos anos 50, início dos anos 60… só sei que isto despertou nele o gosto pelo cinema, que passou aos filhos, sem dúvida. Meu irmão mais velho, Evandro “Magrão”, tem uma locadora (a Starway Vídeo - qualquer alusão ao Led Zeppelin NÃO É mera coincidência), meu irmão do meio Gilmar “Mano” é cinéfilo adorador de filmes antigos (paixão que compartilhamos anos juntos assistindo o “Corujão” da Globo que passava muitos filmes antigos maravilhosos)… e eu claro, que trabalhei na locadora de meu irmão e era conhecido como “sinopse”, pois sabia a sinopse de todos os filmes da locadora…

Meu pai entrou na UFSM em 1966, seis anos após sua fundação… conhecia e era conhecido pela universidade inteira. Foi zelador de um prédio que hospedava (à princípio) professores que vinham fazer pós-graduação, então conhecemos pessoas de todo país, até do exterior… em nossa casa estava instalado o único telefone do prédio, ramal 2255, e todos iam lá fazer ligações (horríveis!) para seus familiares, inclusive os estrangeiros… lembro de um africano (o negro mais NEGRO que conheci, sem nenhum preconceito), que falava uma língua muito estranha… a gente se divertia. Ganhávamos muitas lembranças, desde artesanato (nunca esqueço o jegue de barro e o “cangaceigo” - era pra ser cangaceiro, mas a gente falava imitando o Clóvis Borgnai) até bola de basquete (que tinha quase minha idade… kkkk… e ainda joguei com ela). Tudo isto era fruto da atenção que meu pai (e minha mãe, não posso deixar de citar) dedicava, e sempre fomos bem tratados em retribuição a isto.

Meu pai não teve muita oportunidade de estudar. Lembro dele freqüentando o supletivo para terminar o 1º grau… chegou a iniciar o 2º grau, mas não seguiu adiante. Era bonito ver meu pai e minha mãe, já com um filho casado, buscando crescer, estudar… depois de anos como zelador, meu pai assumiu um cargo na Biblioteca Central da UFSM. Eu adorava visitá-lo lá. Vê-lo catalogar os livros, tudo em fichas, e ele ainda era responsável por restaurar os livros… trabalho que fazia com um gosto que me encanta até hoje. Ajeitar as páginas, as “costuras”, colocar na prensa, colar, refazer a lombada… Além disso, eu emprestava livros em seu nome, li zilhares de livros infanto juvenis, lembro que eu não escolhia, lia na ordem da prateleira… Minha mãe em especial, apesar de suas limitações causadas por uma meningite quando estava na 4ª série, era e é ainda uma ávida leitora, sempre com seu livro de cabeceira… um exemplo que não teve como não nos contagiar. Em especial eu e “Mano” somos leitores vorazes e de leitura muito rápida… fruto da prática obtida com tanto que lemos… Lembro que a Biblioteca uma vez iria jogar fora uma grande quantidade de revistas Seleções (Reader’s Digest, que existe até hoje) da época da segunda guerra, e anos posteriores, da guerra fria… meu pai levou tudo para casa e eu e o “Mano” devoramos aquela fantástica coleção… era como estar no meio da propaganda da guerra, e depois no meio da guerra fria.

Este foi um dos inúmeros presentes que ganhamos de meu pai - mesmo que não tivesse custado nada mais do que sua boa vontade.

Meu pai nunca estudou música, uma vez somente lembro de ter tentado participar no Centro de Artes e Letras a UFSM de um projeto em que monitores davam aulas para a comunidade. Mesmo assim, nos impressionava com seu ouvido fora do comum: qualquer coisa que se comessasse a cantar, ia ele arrastando o dedo na sexta corda para achar o tom e rapidamente estava acompanhando. Coisa que hoje faço eu… Mas, apesar das diferenças por conta das grandes semelhanças (os pais sempre têm mais atritos com os filhos mais parecidos), seu maior orgulho foi, sem dúvida, o Mano. Com sua extraordinária disciplina, sua cabeça sempre voltada a seu sonho, dificílimo, de tornar-se músico num instrumento tão obscuro neste país como a marimba… e que lhe fez conseguir, com muito esforço e talento o que meu pai jamais imaginaria: ter um filho estudando na Inglaterra! Íamos a todos os concertos de meu irmão, do Grupo de Percussão da UFSM, e era o momento sublime de meu pai: ainda lembro como se fosse hoje de meu irmão em sua primeira apresentação da adaptação do “Moto Perpétuo” de Paganini para xilofone (alguém tem a idéia do que é decorar mais de 4 mil notas tocadas sem interrupção??? Paganini era louco, diziam que tinha parte com o diabo, reinventou o violino)… Isto era a realização de meu pai. Todos de pé aplaudindo o “Mano”. Pena que ele não pode ver meu irmão com o título de Doutor em Percussão, que é, antes de mais nada, um prêmio de meu pai.

Engraçado é que o velho Gegê deu a mim seu maior dom: seu ouvido. Mas a garra maior, a força pelo trabalho, por mais que todos nós irmãos a tenhamos herdado, deu ao “Mano”. Não é à toa que todos os trabalhos de meu irmão, mesmo que sem esquecer de agradecer a Deus, aos amigos e à nossa maravilhosa e extraordinária mãe, são dedicados especialmente a ele.

Ele, que nos deu a oportunidade termos uma vida melhor que a dele.

Ele, que nos fez batalhadores.

Ele, que nos ensinou a sermos simples e sermos felizes com as coisas que valem a pena… mesmo sem saber direito disso.

Ele que nos depositou valores sólidos, que nunca se deixou corromper mesmo entre a tantos funcionários públicos que exploravam a UFSM (poucos que sujam esta batalhadora classe, deixo claro).

Ele, que amou-nos tanto mesmo sem saber o caminho para isto, sem saber demonstrar, sem saber às vezes dar um abraço.

Ele, que servia seu prato sempre depois de nós, que sempre deixou o melhor para nós, seus filhos, e nem percebíamos.

Ele, que sendo falho, que sendo imperfeito, que tendo errado, deu-nos vontade de sermos melhores, seja conosco mesmo, seja com os amigos, seja com nossos descendentes. Mas que cresceu tanto, tanto, se conhecemos do que veio, de seu berço pobre, que o que nos deu me parece demasiado difícil de pôr em valores.

Ele, que de alguma forma nos deu a sabedoria de compreendermos seu valor ainda em vida - e não termos remorso de uma palavra esquecida, ainda que sempre pareça que elas foram insuficientes.

Ele, que foi um presente que Deus nos deu: meu pai.

O velho Gegê privou-nos de sua presença terrena há já longos 15 anos. Foi de repente: um infarto fulminante, no meio da noite… tive a sublime oportunidade (e sabedoria que de onde desconheço) de lhe dar um abraço poucas horas antes de falecer. Mesmo sem saber o que ocorreria…

Hoje não é aniversário de nada dele, ele faleceu num setembro, e era sagitariano de 18 de dezembro (aliás o dia em que minha mãe sempre armava a árvore de natal, 7 dias antes). Sagitariano é um bicho livre, que precisa da liberdade, e ele privou-se muito da sua para prover-nos o mundo. Não é fácil, eu sei muito bem. Mas sim, hoje não é nenhuma data que o lembre, apenas o dia em que eu, entrando no banho, tive a inspiração para prestar-lhe uma humilde homenagem que há muito desejava: uma música.

Espero - e meus irmãos, familiares e amigos que o conheciam poderão avaliar - ter deixado em tão pouco espaço a síntese da essência de meu pai: homem íntegro, nada perfeito, mas uma figura que deixou-me e a meus irmãos uma marca impressionantemente positiva. Deu-nos o que não teve e o que era de melhor (além de defeitos, como a teimosia… rs). Era somente um homem. Não era Deus. Mas é meu pai. E como é bom tê-lo como pai.

“Roubei” ou parafraseei um trecho de uma música que adorava: O Negro da Gaita. A letra diz:

“Quando o pai, que foi gaiteiro
Desta vida se ausentou
O Negro, piá, solitário
Tal como pedra rolou
E se fez homem proseando
Com a gaita que o pai deixou”

… música cantada pelo extraordionário César Passarinho, possuidor de uma das vozes que mais me marcaram na vida, intérprete sublime e com muita justiça muitas vezes premiado.

“Quando o Negro abre essa gaita
Abre o livro da sua vida
Marcada de poeira e pampa
Em cada nota sentida”

E, não poderia deixar de ser, um trecho da música com a qual meu pai deleitou-nos várias e várias vezes, e com a qual o homenageamos em sua partida: Chalana.

CHALANA
Composição: Mario Zan e Arlindo Pinto

Lá vai uma chalana
Bem longe se vai
Navegando no remanso
Do rio Paraguai
Ah! Chalana sem querer
Tu aumentas minha dor
Nessas águas tão serenas
Vai levando meu amor
Ah! Chalana sem querer
Tu aumentas minha dor
Nessas águas tão serenas
Vai levando meu amor
E assim ela se foi
Nem de mim se despediu
A chalana vai sumindo
Na curva lá do rio
E se ela vai magoada
Eu bem sei que tem razão
Fui ingrato
Eu feri o seu pobre coração
Ah! Chalana sem querer
Tu aumentas minha dor
Nessas águas tão serenas
Vai levando meu amor
Ah! Chalana sem querer
Tu aumentas minha dor
Nessas águas tão serenas
Vai levando meu amor

É bom ter meus filhos e ver em mim as coisas mais positivas de meu pai. Num mundo em que se reclama tanto de pais que abandonam os filhos… eu sei que há muito a trilhar, mas dentro de mim tenho a força do meu velho, que se necessário fazia bicos, não tinha trabalho pouco digno se fosse para dar sustento a seus filhos. E o desejo de ser um pouco melhor como pai do que ele, de errar menos do que ele… pois querer o melhor para os filhos é sua maior herança. Nos ensinou respeitar todas as pessoas e hoje isto é uma benção… se somos bem tratados pela moça da padaria, pelo motoboy ou pelo porteiro, isto é algo que ele nos depositou. Assim como saber andar entre doutores. A impressionante avidez que temos pelo conhecimento, pelo estudo… a curiosidade que vejo em meu filho Bernardo em aprender tudo e tudo… veio de meu velho. E quando o Bernardo gruda em mim quando faço algum trabalho manual, qualquer que seja, vejo a mim em volta do velho Gegê, quer ele estivesse pregando um prego, fazendo um furo na parede ou passando gasolina de um carro para um galão. Quantas coisas aprendi com meu velho pai! E quantas ainda vou ensinar para meus filhos.

Eu quis deixar nesta música algumas referências que não se pode tirar dele: o estilo da música (apesar de não ser muito natural para eu compor, mesmo gostando muito do que ele tocava), a lembrança dos solos que ele fazia do violão, do assovio que acompanhava obrigatoriamente qualquer trabalho que estivesse realizando (sempre uma música irreconhecível), e a lembrança bonita de seu enterro… em que tive a sublime iluminação de fazer todos cantarem enquanto seu corpo era sepultado. Quando vi a todos chorando, eu disse algo assim: “Não posso deixar que isto aconteça! Ele cantou a vida inteira para nós, vamos cantar para ele partir!”. E comecei a cantar, engasgado, “Chalana”. Que ele tantas e tantas vezes cantou para nós. E foi extraordinário.

Depois do enterro, nunca mais chorei pela morte de meu pai. Não achava certo: não queria deixar a saudade tomar conta de meus dias, se ele tinha deixado tanta coisa boa em mim.

Mas hoje chorei. Não de tristeza, não de saudade.

Chorei de sentir o quanto ele está vivo em mim, em seus filhos, naqueles que amava.

A Chalana o levou sem tirá-lo de nós…

O Velho e a Chalana [mp3]

Segunda-feira, 24 de Março de 2008 -- em MP3
» Sem Comentários    » Deixe um comentário!!

veja também para esta música... » letra » história

Esta gravação foi muito simples… duas vezes meu violão Michael “de guerra”. Um solo simples, acompanhado por um assovio… Na verdade tudo no arranjo é uma homenagem ao jeito de meu pai, o assovio, o solo, a forma aberta de cantar… mesmo que não chegue aos pés do que ele fazia tocando Trio Los Panchos e música nativista… bom… é só pra ser assim.

MP3 - Rafael Goulart - O Velho e a Chalana

O Velho e a Chalana [letra]

Segunda-feira, 24 de Março de 2008 -- em Letras de Músicas
» Sem Comentários    » Deixe um comentário!!

veja também para esta música... » mp3 » história

Rafael Goulart - 22mar2008 - 20:29h

Sendo o velho generoso
Mas sem muito a seu dispor
Deu aos filhos tão somente
O que a vida lhe negou

Pegou cada filho pela mão
E na escola lhes levou
E o gosto pelo estudo
Em seus peitos despertou

Ah, chalana
Vai, chalana
Leva embora este senhor
Que com seu trabalho, seu suor
Tanto nos ensinou

Sendo o velho imperfeito
Muito errou, muito acertou
E se aos filhos deu defeitos
Muito mais o seu valor

O respeito pelo outro
O prazer por trabalhar
E o seu bem mais precioso
Que era aos filhos tanto amar

Oh, chalana
Vai, chalana
Leva embora este senhor
Que sem saber nem bem como
Tanto nos acarinhou

“Quando o pai que foi violeiro
Desta vida se ausentou
O menino adormeceu menino
E como homem levantou”(*)

E na hora derradeira
De entregar seu pai a Deus
O menino, a família inteira
Multidão de amigos seus

… cantaram assim:

(música incidental)
Ó, chalana, sem querer
Tu aumentas minha dor
Nestas águas tão serenas
Vai levando meu amor
Oh, chalana, sem querer
Tu aumentas minha dor
Nestas águas tão serenas
Vai levando meu amor

Oh, chalana
Vai, chalana
Leva embora este senhor
Que com sua voz, seu violão
Muita gente alegrou
Oh, chalana
Vai, chalana
Leva embora este senhor
Que com sua voz, seu violão
Muita gente alegrou

———————————–

(*) Este trecho é parafraseado de “Negro da Gaita”, música cantada pelo extraordinário César Passarinho (que também já não canta por estes pagos mais) e que meu pai adorava tocar e cantar. O original diz assim:

“Quando o pai que era gaitero
Desta vida se ausentou
O negro, piá solitário
Tal como pedra rolou
E se fez homem proseando
Com a gaita que o a pai deixou”

Aos Pares

Sexta-feira, 21 de Março de 2008 -- em Um novo sol
» Sem Comentários    » Deixe um comentário!!

veja também para esta música... » letra » mp3

Em breve conto o porquê (junto e com acento) desta música… coisas que acontecem e a gente pergunta: será que coincidências existem mesmo???