Um filme marcante de minha infância/adolescência foi “Três homens em conflito” (“The good, the bad and the ugly” em inglês, ou “Il buono, il brutto, il cattivo” no italiano). Um western spaghetti clássico com o Clint Eastwood e o Lee Van Cleef.
A história pode ser conhecida na Wikipedia (http://pt.wikipedia.org/wiki/Il_buono,_il_brutto,_il_cattivo), mas sugiro a todos assistirem ao filme. Vale a pena. Um humor cáustico, pistoleiros, um bom divertimento acompanhado de pipoca.
Bom, o fato só quando chegou a turnê do Gravaêh, com o buzão e tudo, é que pude conhecer a “trupe” completa. Eddie, técnico de som e baterista; Sérgio, diretor administrativo, pseudo-guitarrista e perigoso com uma arma de paintball na mãe; Robson, diretor musical, guitarrista, violonista, e alguma coisa mais talvez, só que excelente, excelente; e o Maverick, motorista, mecânico e voz da consciência dos demais.
Eddie é aquele cara que você nunca consegue imaginar de mau humor, ou soltando as patas, ou perdendo as estribeiras (se bem que estes, quando perdem, são os piores). O que chama atenção nele é a boa vontade, paciência em ajudar e servir – seja o músico competente, seja o com dificuldades. É o típico cara que uma equipe precisa ter, extremamente competente, versátil, prático. Sempre com um sorriso suave ao cumprimentar e o inseparável chapéu.
Questionei seriamente: existiria vida inteligente sob aquele chapéu? Que mistérios ocultos, quantos anos sem um corte de cabelo decente? Haveria cabelo? O Sérgio, num momento de distração instantes antes desta figura entrar no banho conseguiu uma foto exclusiva e inédita revelando o mistério. Me mostrou. Casou-me tamanho impacto que não tenho coragem de revelar. O mundo não está preparado. A ignorância protege os inocentes.
Robson é aquele cara chato, mas chato, muito chato. Porém, é o chato em busca da perfeição. Músico competentíssimo, uma sensibilidade refinada, é quem puxa o nível dos músicos pra cima. O problema é que puxa à fórceps. É duro, exigente, mete medo na gurizada nova. Mas não poderia faltar a figura dele.
O detalhismo com que coordena a parte musical é um diferencial enorme do Gravaêh. Suas sugestões baseadas na vasta experiência são utilíssimas, em especial para nós, leigos, que não temos “manha” de estúdio. Claro que não é perfeito, às vezes não acerta a mão ou pega o espírito de uma música. Mas ele atende dez bandas/músicos em 5 dias! Com músicos de níveis mais distintos, desde instrumentistas brilhantes até iniciantes. E trata a todos com respeito, e tenta tirar o melhor de todos.
Um momento em que fiquei impressionado foi ao gravar uma base para uma das músicas que selecionei para o estúdio. Era num violão aço. Fora o quase insuportável cuidado com a afinação, como era tocado de forma aberta, em todas as cordas, ele deu-se ao trabalho de ficar abafando a sexta corda cada vez que não devia soar no acorde total. 4 minutos pacientemente acompanhando minha performance e abafando a sexta corda sempre que preciso. É preciso muito gosto, amor mesmo pelo que se faz para ter tamanha dedicação à música de um quase desconhecido ali na frente. Este é o Robson. Teimoso, mas um teimoso do bem.
Ok, eu sei que ele mete medo na garotada, pois ouve uma vez o que eles tocam e toca MELHOR. Muito melhor. Mas não há de se envergonhar, apenas baixar a cabeça e aprender. E se quiser aprender, ele vai ensinar com muito gosto.
Só não dá pra esquecer as peripécias dele para manter a alimentação macrobiótica enquanto a prefeitura liberou um restaurante que só servia pizza à noite. Chegou a comprar panelas, cozinhar lentilhas (acho que foi isso, parece que cozinhou o suficiente para 1/3 da população de Santana do Livramento) e foi comer lá no restaurante. Essa eu precisava ter visto.
Sérgio, bem, o Sérgio é uma figura. De longe o mais agitado e falador de todos. Um cara que faz todo o possível para fazer as coisas acontecerem. Naquela posição terrível de ficar cobrando, ligando, se preocupando, pagando as contas e controlando tudo.
Mas o Sérgio é um cara que gosta de conversar, de contar histórias e do Iron Maiden. Ah, e de paintball. Ah, e de cachorros. Os cachorros também gostam dele. Aliás, teve um dia, no sábado, em que apareceu um rottweiler sem dono, mas com coleira, solto na praça General Osório. As pessoas demonstraram medo, mas o cachorro estava bem tranquilo… o Sérgio foi lá, na maior calma, fez amizade com o cusco. O bicho estava era feliz de estar solto, super manso. Depois ainda apareceu por lá de novo.
Quase todo dia a primeira pessoa que eu avistava era o Sérgio. Já abrindo o toldo, montando as coisas. Já no pé do secretário da cultura por alguma pendência. Já ocupado com a mangueira do não sei-o-quê do ônibus que tinha que ser consertada. E atendendo quem perguntava alguma coisa na rua. E dando entrevistas na rádio. E resolvendo todos os pepinos que aparecem.
E ainda se divertindo com a gente, no meio das conversas intermináveis ou “jam sessions” com o Leco Cavalheiro.
Se for preciso brigar, ele briga. Se for preciso ser firme, ele é. Se for preciso dar uma risada, ele dá. Mas o mais importante: é preciso mantê-lo abastecido com bobagens alimentícias, como refrigerante e batata-frita. Senão o homem não funciona.
Demos muitas risadas juntos, contamos muitas histórias e falamos muita bobagem. É daquelas pessoas que parece que a gente já conhece há tempos. Como um velho amigo, que há tempos não se vê.
Falta o Maverick. Maverick, “the driver”, é responsável pela manutenção do ônibus. Mas o papel dele é bem maior do que isto. Até pitaco nas produções das músicas ele dá. Sendo mais experiente, é o cara que todo mundo respeita, que bota ordem. Além de ser o cara que faz tudo que é preciso para as coisas andarem. E discreto no canto dele.
Não tive como não lembrar de uma música d’Os Crápulas, banda antiga do Maurício Ricardo, do site Charges.com.br .
Buenas, a questão é que depois de conhecer esta turma, vê-los no dia-a-dia, não tive como não lembrar do filme que dá título a este post. Então, não resisti (mesmo correndo o risco de ter sérios prejuízos na mixagem das minhas músicas) de fazer uma pequena paródia com o poster do filme…
O “bom” tinha que ser o Eddie, com seu jeito de bom moço todo solícito. O “mau” tinha que ser o Robson, o carrasco musical. Então sobrou o “feio” para o Sérgio mesmo, apesar dos protestos.
Mas é na verdade uma homenagem. Pena que não coube o Maverick. Eles formam uma equipe equilibrada, onde a características de cada e as divergências só fazem crescer o todo.
Não sei se funcionaria diferente. Fiquei feliz de conhecer todos. E muito sorte nas próximas viagens. E nos vemos na festa de entrega aqui na fronteira…
























