Gravaêh – Três homens em conflito – O bom, o mau e o feio (e o motorista)


Um filme marcante de minha infância/adolescência foi “Três homens em conflito” (“The good, the bad and the ugly” em inglês, ou “Il buono, il brutto, il cattivo” no italiano). Um western spaghetti clássico com o Clint Eastwood e o Lee Van Cleef.

Três homens em conflito - O bom, o mau e o feio

A história pode ser conhecida na Wikipedia (http://pt.wikipedia.org/wiki/Il_buono,_il_brutto,_il_cattivo), mas sugiro a todos assistirem ao filme. Vale a pena. Um humor cáustico, pistoleiros, um bom divertimento acompanhado de pipoca.

Bom, o fato só quando chegou a turnê do Gravaêh, com o buzão e tudo, é que pude conhecer a “trupe” completa. Eddie, técnico de som e baterista; Sérgio, diretor administrativo, pseudo-guitarrista e perigoso com uma arma de paintball na mãe; Robson, diretor musical, guitarrista, violonista, e alguma coisa mais talvez, só que excelente, excelente; e o Maverick, motorista, mecânico e voz da consciência dos demais.

Eddie e sua mesa cirúrgica

Eddie é aquele cara que você nunca consegue imaginar de mau humor, ou soltando as patas, ou perdendo as estribeiras (se bem que estes, quando perdem, são os piores). O que chama atenção nele é a boa vontade, paciência em ajudar e servir – seja o músico competente, seja o com dificuldades. É o típico cara que uma equipe precisa ter, extremamente competente, versátil, prático. Sempre com um sorriso suave ao cumprimentar e o inseparável chapéu.

Questionei seriamente: existiria vida inteligente sob aquele chapéu? Que mistérios ocultos, quantos anos sem um corte de cabelo decente? Haveria cabelo? O Sérgio, num momento de distração instantes antes desta figura entrar no banho conseguiu uma foto exclusiva e inédita revelando o mistério. Me mostrou. Casou-me tamanho impacto que não tenho coragem de revelar. O mundo não está preparado. A ignorância protege os inocentes.

Robson em pose de professor dedicado

Robson em pose de professor dedicado

Robson é aquele cara chato, mas chato, muito chato. Porém, é o chato em busca da perfeição. Músico competentíssimo, uma sensibilidade refinada, é quem puxa o nível dos músicos pra cima. O problema é que puxa à fórceps. É duro, exigente, mete medo na gurizada nova. Mas não poderia faltar a figura dele.

O detalhismo com que coordena a parte musical é um diferencial enorme do Gravaêh. Suas sugestões baseadas na vasta experiência são utilíssimas, em especial para nós, leigos, que não temos “manha” de estúdio. Claro que não é perfeito, às vezes não acerta a mão ou pega o espírito de uma música. Mas ele atende dez bandas/músicos em 5 dias! Com músicos de níveis mais distintos, desde instrumentistas brilhantes até iniciantes. E trata a todos com respeito, e tenta tirar o melhor de todos.

Eddie e o Sérgio (na sua dieta macrogordótica)

Eddie e o Sérgio (na sua dieta macrogordótica)

Um momento em que fiquei impressionado foi ao gravar uma base para uma das músicas que selecionei para o estúdio. Era num violão aço. Fora o  quase insuportável cuidado com a afinação, como era tocado de forma aberta, em todas as cordas, ele deu-se ao trabalho de ficar abafando a sexta corda cada vez que não devia soar no acorde total. 4 minutos pacientemente acompanhando minha performance e abafando a sexta corda sempre que preciso. É preciso muito gosto, amor mesmo pelo que se faz para ter tamanha dedicação à música de um quase desconhecido ali na frente. Este é o Robson. Teimoso, mas um teimoso do bem.

Ok, eu sei que ele mete medo na garotada, pois ouve uma vez o que eles tocam e toca MELHOR. Muito melhor. Mas não há de se envergonhar, apenas baixar a cabeça e aprender. E se quiser aprender, ele vai ensinar com muito gosto.

Só não dá pra esquecer as peripécias dele para manter a alimentação macrobiótica enquanto a prefeitura liberou um restaurante que só servia pizza à noite. Chegou a comprar panelas, cozinhar lentilhas (acho que foi isso, parece que cozinhou o suficiente para 1/3 da população de Santana do Livramento) e foi comer lá no restaurante. Essa eu precisava ter visto.

Sérgio, bem, o Sérgio é uma figura. De longe o mais agitado e falador de todos. Um cara que faz todo o possível para fazer as coisas acontecerem. Naquela posição terrível de ficar cobrando, ligando, se preocupando, pagando as contas e controlando tudo.

Mas o Sérgio é um cara que gosta de conversar, de contar histórias e do Iron Maiden. Ah, e de paintball. Ah, e de cachorros. Os cachorros também gostam dele. Aliás, teve um dia, no sábado, em que apareceu um rottweiler sem dono, mas com coleira, solto na praça General Osório. As pessoas demonstraram medo, mas o cachorro estava bem tranquilo… o Sérgio foi lá, na maior calma, fez amizade com o cusco. O bicho estava era feliz de estar solto, super manso. Depois ainda apareceu por lá de novo.

Quase todo dia a primeira pessoa que eu avistava era o Sérgio. Já abrindo o toldo, montando as coisas. Já no pé do secretário da cultura por alguma pendência. Já ocupado com a mangueira do não sei-o-quê do ônibus que tinha que ser consertada. E atendendo quem perguntava alguma coisa na rua. E dando entrevistas na rádio. E resolvendo todos os pepinos que aparecem.

E ainda se divertindo com a gente, no meio das conversas intermináveis ou “jam sessions” com o Leco Cavalheiro.

Se for preciso brigar, ele briga. Se for preciso ser firme, ele é. Se for preciso dar uma risada, ele dá. Mas o mais importante: é preciso mantê-lo abastecido com bobagens alimentícias, como refrigerante e batata-frita. Senão o homem não funciona.

Demos muitas risadas juntos, contamos muitas histórias e falamos muita bobagem. É daquelas pessoas que parece que a gente já conhece há tempos. Como um velho amigo, que há tempos não se vê.

Maverick, the wild driver

Maverick, the wild driver

Falta o Maverick. Maverick, “the driver”, é responsável pela manutenção do ônibus. Mas o papel dele é bem maior do que isto. Até pitaco nas produções das músicas ele dá. Sendo mais experiente, é o cara que todo mundo respeita, que bota ordem. Além de ser o cara que faz tudo que é preciso para as coisas andarem. E discreto no canto dele.

Não tive como não lembrar de uma música d’Os Crápulas, banda antiga do Maurício Ricardo, do site Charges.com.br .

Buenas, a questão é que depois de conhecer esta turma, vê-los no dia-a-dia, não tive como não lembrar do filme que dá título a este post. Então, não resisti (mesmo correndo o risco de ter sérios prejuízos na mixagem das minhas músicas) de fazer uma pequena paródia com o poster do filme…

O Bom, o Mau e o Feio - versão Gravaêh

O Bom, o Mau e o Feio - versão Gravaêh

O “bom” tinha que ser o Eddie, com seu jeito de bom moço todo solícito. O “mau” tinha que ser o Robson, o carrasco musical. Então sobrou o “feio” para o Sérgio mesmo, apesar dos protestos.

Mas é na verdade uma homenagem. Pena que não coube o Maverick. Eles formam uma equipe equilibrada, onde a características de cada e as divergências só fazem crescer o todo.

Não sei se funcionaria diferente. Fiquei feliz de conhecer todos. E muito sorte nas próximas viagens. E nos vemos na festa de entrega aqui na fronteira…

O Bom, o Mau, o Feio e a Vítima

O Bom, o Mau, o Feio e a Vítima

Gravaêh – Leco Cavalheiro: ninguém conhece um louco impunemente


Leco Cavalheiro, lenda da fronteira da paz

Leco Cavalheiro, lenda da fronteira da paz

Toda cidade tem um louco, um gênio, e um incompreendido.

Talvez a fronteira da paz, esta querida Santana do Livramento, seja uma das privilegiadas de ter todas estas figuras simbólicas em uma pessoa só: um tal de Leco Cavalheiro.Qualquer coisa que for escrita sobre o Leco seria pouco, até porque tive um rápido convívio com ele. Mas deixo aqui minhas impressões e, concomitantemente, homenagem.

No dia da primeira audição do Gravaêh, sentei estrategicamente nem muito ao fundo, nem muito à frente (naquela posição precisa onde você nem parece CDF, nem parece da turma do fundão). Após a apresentação do prefeito da cidade, secretário da cultura, blá, blá, blá, o pessoal do Gravaêh tomou a palavra, explicou a organização que haveria e então foi-se discutir o horário de cada banda/música na semana de gravação. Naturalmente o fim de semana seria disputado, mas como sou freelancer e tenho flexibilidade, já me dispus para segunda pela manhã (ser o primeiro também é pedreira, já que começariam na sexta anterior). Aí surgiu um problema com um doido.

O doido tinha um problema criminal, ou carcerário: o baterista (ou baixista, não lembro) era agente penitenciário, e não sabia ainda de sua escala. Ou seja, se marcasse com antecedência (seria dali a duas semanas), poderia não poder. Então, como para mim ir na segunda ou na quarta seria indiferente, rápido como Clint Eastwood em “Três Homens em Conflito” (opa, post errado, isto é assunto para outra conversa) saquei meu cartão e entreguei para ele. Pedi que ligasse e se preciso, eu trocava de horário com ele. Bom, uns dias depois o doido me ligou. Putz, ficamos quase uma hora no celular. Eu me despedi umas 5 ou 6 vezes até conseguir desligar. Credo! Como fala! É um cara muito intenso.

Pausa. Nas vésperas do Gravaêh liguei de volta, pra confirmar se haveria a troca. Aí ele me disse que não me preocupasse, ficaria na quarta mesmo, pois acabou “despedindo” a banda inteira e pegando outros músicos.

Sim, isto é fake. Gesse, Leco e Sérgio

Sim, isto é fake. Gesse, Leco e Sérgio

Na segunda à tardinha, fui ali na praça General Osório para tirar as fotos do pessoal que estava gravando – como o pessoal do Gravaêh estava sem máquina fotográfica, fiquei de fotógrafo semioficial (semi pela falta de competência, uma vez esqueci de recarregar as pilhas, na outra esquecei o cartão de memória). E chegou o doido: agora melhor apresentado como Leco Cavalheiro. Halley era um dos codinomes da figura.Como a banda que estava tocando no turno da noite estava engasgando para fazer a trilha suja, começou a ficar maçante… aí o Leco já pegou o violão do Sérgio do Gravaêh e começou a tocar algumas coisas. O Sérgio então aproveitou o microfone que estava na mesinha do lado de fora, plugou o violão e aí começou o improviso do Leco.

Galera posando para o "tiozinho" fotógrafo (é, já sou "tiozinho")

Bah, juntou até uma galera que estava meio que saindo escondida da escola (pareceu-me, me perdoem se dou um falso testemunho). Todo mundo dava uma parada para olhar. E eu e o Sérgio, além do meu filho Bernardo, nos divertindo a beça.
Teve até versão dos Beatles, “Tava tri” (“Let it Be”). E claro, apareceu aí um doido “oficial”: o Bira. Este já um tanto quanto alterado por alguma substância alcóolica de origem desconhecida, portando uma indefectível camiseta do Sepultura. Além de, claro, uma originalissima dança misturando capoeira, jazz contemporâneo e o balanço característico proveniente do estado ébrio em que se encontrava. Até trova para ele o Leco fez.

 

Bira, o metaleiro capoerista

Alfarrábios versão 87.5b

“Pensam que esta história se estanca por aqui? Pensam? No!!! Esta história se estende!!!” (livre referência ao Tango e Tragédias).
Lá então na terça à tardinha, novamente eu fui para tirar fotos dos “gravantes” do Gravaêh. Aí o Sérgio me chamou para o Teatro Municipal na frente, onde o Leco estava ensaiando com a banda “nova” (é, um dia antes de gravar). Lá fomos eu e meu filho Bernardo novamente.

Apesar do som horrível (uma caixa Meteoro clássica – eu tive uma dessas!! e outra para baixo da Moog, onde também estava o microfone de voz… nossa), da bateria semivirtual do Gesse (caixa e cimbal, mas ele fazia o resto das viradas no ar, algo lendário), foi fantástico. O coitado do gaitista (gaita de boca), este desistiu, não tinha como, não se ouvia nem ouviam ele. Mas gravou no outro dia. Mas tinha um carequinha lá no fundo, com um violão Di Giorgio ligado numa pedaleira e na caixa Meteoro. Perdido, parecia. Meio desconectado, parecia. Num mundo só dele, parecia. Era o Régis.

Régis. É, o Régis.

Aí a gente se questionou o que aquele cara fazia ali. Até que o Gesse, baterista, “cutucou” o cara e ele começou a tocar… bah, não, começou a tocar MUITO. Mas MUITO. Mas MUITO MESMO. Não apenas numa técnica impressionante, quase acrobática, mas com uma velocidade estonteante. Não satisfeito, o Gesse falava “mais cadenciado”, mudava um pouco o ritmo e o Régis se adaptava e faziam os dois sozinhos o barulho.

Uma pena que o som estivesse tão ruim enquanto eu gravava na câmera. Não vale a pena nem colocar no Youtube assim, não faz juz ao talento do Régis. Nem ao talento cênico do Gesse (aliás, também um ótimo baterista, com uma caixa e cimbal faz mais do que muitos não fazem com uma bateria completa). E essa foi a banda do Leco Cavalheiro. No dia seguinte, ele ainda ganhou uma aposta como Robson, diretor musical do Gravaêh, quando disse que gravava uma música em menos de duas horas. E gravou. Com músicos fantásticos, que ensaiaram só uma vez.

É duro às vezes ver que tanta gente mais ou menos ganham uma imensa produção e parecer tão “ohhhh”. E tantos músicos fantásticos estão aí ralando nos bares. E em todos os estilos. Aqui nesta fronteira distante, quase Uruguai, meio lá, meio cá, encontrei tanta gente boa, excelente, tocando e cantando com uma impressionante competência, cada um no seu estilo. De várias idades… mas isto complemento em outro post.

Mas o mais impressionante, não apenas para mim, tenho certeza, é o Leco Cavalheiro.

Acho que o que resume este cara é a conversa que eu e o Sérgio tivemos no meio da barulheira do ensaio:

- Este cara é um gênio incompreendido – disse o Sérgio.
- E incompreensível – completei eu.

(Mais fotos na sequência.)

Leco, a aparição.

Bira num êxtase musical-etílico, não necessariamente nesta ordem.

Gesse, um baterista muito bom e muito louco (também não necessariamente nesta ordem)

Gesse, um baterista muito bom e muito louco (também não necessariamente nesta ordem)

Está ouvindo a gaita? Nem o gaitista...

Está ouvindo a gaita? Nem o gaitista...

Régis e Gesse. Mui grato por ser sua platéia.

Régis e Gesse. Mui grato por ser sua platéia.

 

Amar, verbo incompreendido


Muitas vezes fui tachado de romântico por minhas músicas, mas uso pouquíssimo o substantivo amor, o verbo amar. E não o faço para não macular as palavras.

Não, não faço canções de amor. Este sentimento fugaz e explosivo, que tanto inspira poemas e canções, é paixão, e não amor. Se isto inspira algumas boas canções e outras nem tanto, então, que venham, mas não se iludam leitores e ouvintes: não são canções de amor.

Não se pode chamar de amor algo que não passa de uma emoção de verão, um deslumbre adolescente, uma luxúria desmedida, uma obsessão cega e doentia. Não se pode chamar de amor algo que prende o outro, algo que condiciona a felicidade a presença do outro. Algo que obriga outro a satisfazer-ME. Algo que leva ao suicídio se não está com o outro. Amor não dói, e principalmente, não faz doer.

Uma amiga que optou por não ter filhos (o que, racionalmente, creio que qualquer pessoa faria, se olhar para o mundo de modo cru e realista), certo dia me disse que a única coisa que tinha pena é que não conheceria o “amor incondicional”, o amor materno.

Também sou obrigado a dizer: não existe nada mais condicional que amar seu filho, posto que se ama pela própria condição de ser “SEU” filho. De um mestre uma vez li que não há mérito em amar aos seus, pois até os pecadores amam aos seus. Um bandido, um traficante protege, “ama” a seus fiilhos. Perdoem-me se pareço drástico, mas isto é apego, e não amor. Não que não se possa ter amor nesta relação pai-filho, mãe-filho; apenas nos iludimos que amamos, e mal-educamos nos filhos em nome do amor. O mais simples exemplo disso é que o amor não escolhe, quem escolhe são as pessoas que não sabem amar, que optam por amar a um e não a outro. Uma parábola conta que duas mães estavam dentro de casa enquanto seus filhos de mesma idade brincavam na rua; ouviu-se um grito de dor. Correm as mães para fora, uma das crianças se machucou, ambas as mães correm para abraçar seus filhos – e a mãe cujo filho não se machucou pensa de imediato: “Que bom que não foi meu filho!”. Quantos de nós temos esta reação em momentos de tragédia? Quantos de nós realmente conseguimos ver a todos com a mesmo preocupação? Ok, é uma utopia.

O egoísmo é tanto no ser humano que nem amar a si mesmo é algo simples. A cacarejada auto-estima, o amor-próprio (ah! maldita nova ortografia, errei ou acertei o hífen?)… são desculpas para nosso próprio egoísmo, infelizmente sedimentadas cientificamente e ainda pior, incrustradas no senso-comum. Valorar-se (não gosto de usar o termo valorizar-se) é um processo auto-estima verdadeiro, de estimar-se em pontos positivos e negativos, não enganar-se, é um verdadeiro ato de amor por seu próprio ser. Amar-se é reconhecer-se falho, mas não sem perder a justa esperança de que podemos melhorar sempre e sempre.

Amar é uma atitude, e mas não é possível taxar todos os atos de amorosos ou não-amorosos. Existe amor no “não” e existe amor no “sim”. Existe amor no abraço e existe amor no tapa (por mais politicamente incorreto que possa soar, por mais que isto possa suscitar deduções equivocadas). Existe amor em estender a mão e existe em virar as costas. E pode não existir amor em nada disso.

Às vezes vemos um pai ou uma mãe sendo severo, até grosseiro com seu filho na rua, e cada um de nós pensa ou “é um absurdo” ou “é isso mesmo, tem que educar”. A verdade é que ignoramos, não sabemos o histórico, não sabemos o que se passa no interior do pai/mãe naquele momento para julgar. A verdade é que não temos parâmetros para julgar nem se nossos atos são de amor, quanto mais os atos dos outros.

O amor não é compreendido, mais do que isso, é incompreensível. Incompreensível porque tentamos utilizar nossa linguagem humana limtada para explicar algo que só pode ser compreendido por sentidos que atrofiamos, que não valorizamos. É como se para enxergar precisássemos fechar os olhos, para ouvir cerrar os ouvidos, para degustar um odor prendêssemos a respiração…

É preciso explicar o amor com silêncio, é preciso ouvi-lo sem que seja dito. É preciso enxergá-lo onde parece não existir, expressá-lo sem gestos… É preciso sentir e fazer sentir.

Amar é verbo
De perfeita conjugação
Sem pretérito ou futuro
Sem antes ou depois
Posto que é aqui para sempre
Um eterno presente

Não existe amei, amaste, amou
Amamos, amastes, amaram
Pois se deixou-se de amar
Nunca foi amor

Amar não admite
Advérbio de intensidade
Não se ama mais ou menos
Melhor ou pior
Pouco ou bastante
Posto que amar
É por si só suficiente

Amar não é substantivo
Próprio ou impróprio
Masculino ou feminino
Singular ou plural
Não cabe em dicionário
Posto que é indefinível
Impossível limitar em definição
Algo que existe sem limitação

Amar
É a preposição final
O prefixo e o sufixo
A conjunção que nos une
Palavra tão completa
Que sozinha encheria
Frases,
Páginas,
Livros,
Estantes,
Bibliotecas,
Simples assim:
Amar.

( Rafael Goulart, 04mai2010)

Isto é um desabafo. Um desabafo de alguém que ao parecer desesperançoso no amor, na verdade continua em busca de compreendê-lo, de transformá-lo em atitudes reais, que façam não parecer hipocrisia quando abraço meus filhos e lhes digo:

“Eu te amo”.

 

Gravaêh – Uma guriazinha chamada Eduarda Rosa


Eduarda Rosa fazendo pose para foto

Eduarda Rosa fazendo pose para foto (na hora de gravar a voz "não pódi" ficar no estúdio!)

No dia em que aconteceu a primeira audição do Gravaêh, duas semanas antes da gravação, tive a oportunidade de conhecer e conversar com a Eduarda Rosa. Guria curiosa e papo bom – algo importante de ressaltar, afinal ela só tem 14 (ou 15 anos). Ela começou a “carreira” cantando música nativista, participando de alguns festivais inclusive, mas começou a ouvir e cantar outras coisas – o que é bom, com o seu imenso potencial.

Foi uma das últimas a fazer a audição, estava num “nervosismo controlado”, aquele estado em que todo mundo sabe que você está nervoso mas na verdade não tem nada aparente. Mas entrou na sala de audição e foi bem – porque, em resumo, é uma ótima cantora.

Mas o curioso da audição foi o Sérgio do Gravaêh contando que as músicas são pré-organizadas para que se faça a seleção por uma funcionária, que ouve um pedaço das músicas, preenche um formulário com um o gênero e faz uma espécie de numeração para o “nome do artista” não influenciar a comissão de avaliação. Ok, o caso é que ela achou que a música que a Eduarda enviou era gospel, e colocou o gênero lá: “Gospel”. E ficou todo mundo da comissão se perguntando porque diacho a música era Gospel… bem, nada contra música Gospel, mas foi uma bela viagem da organizadora…

Trocamos contato depois, obviamente o povo adolescente mais “muderno” é twitter na veia… acabei pesquisando (como faço com todo mundo) a guria na internet, descobri o blog dela: http://eduardarosacantora.blogspot.com/. Ela escreve bem! Me lembrou uma amiga no twitter que mandou os pais ensinarem ortografia para os filhos, porque “sexo eles aprendiam na rua mesmo” – forçado, mas é para lembrar que as últimas gerações escrevem MAL, em geral a geração do miguxês. Mas MUITO mal. Isto dói e prejudica tudo que querem ser.

(Aliás, falando em miguxês, vale a pena conhecer o MiGuXeiToR http://www.coisinha.com.br/miguxeitor/, uma ferramenta tri-útil – ??? – para traduzir do português para as variantes do miguxês, obra do incrível nerd Aurélio Vargas, o “Verde” – veja mais em http://aurelio.net/http://www.coisinha.com.br/)

Robson arrancando sangue do Edinho no estúdio do Gravaêh

Robson arrancando sangue do Edinho no estúdio do Gravaêh

Fiz questão de ir lá tirar fotos da gravação dela, apesar de minha incompetência em esquecer o cartão de memória em casa, o que me restringiu a poucas (e não tão boas) fotos da gravação dela. Ela foi acompanhada pelo professor Edinho, da El2Banda. Eu cheguei lá para tirar fotos e caiu um toró, então tive que ficar e esperar a chuva passar (também havia esquecido do guarda-chuva mesmo). O Robson, diretor musical do Gravaeh, quase tirou sangue do Edinho: como o Edinho é um excelente instrumentista, gravou zilhares de solos para uma das músicas (um blues que permitia improvisos) e o Robson sempre pedia mais um, dava idéias, realmente feliz por pode extrair sangue do pobre músico. É, o Robson é “mau” (mas isto é assunto para outro post!).

A gravação foi, certamente, uma das melhores surpresas do Gravaêh. Assim, surpresas porque o material gravado foi realmente EXCELENTE, nas duas músicas. Fora o fato das ótimas composições da adolescente Eduarda, os maravilhosos arranjos feitos pelo Edinho – e magistralmente executados por ele e por ela – o que garantiram o entusiasmo da trupe do Gravaêh e minha também. Uma das músicas não se espantem se eles não converterem num heavy metal… realmente tinha toda uma pegada progressiva que poderia muito bem ter uma versão assim. Mas é preciso salientar o arranjo, com vários violões gravados pelo Edinho (eu contei 5 pistas) casando no detalhe com o vocal e 3 vocalises da Eduarda. Realmente, um luxo, e uma grande responsabilidade na hora da mixagem para não perder esta riqueza.

Eduarda Rosa, pai, mãe, e Giovana da El2Banda na técnica do Gravaêh

Eduarda Rosa, pai, mãe, e Giovana da El2Banda na técnica do Gravaêh

Mas a maior curiosidade foi a presença dos pais da Eduarda no estúdio. Ela não gosta, nem ensaia em casa se eles ouvirem (a mãe disse que ela vai para um quarto de estudo e ainda liga uma televisão para disfarçar seu “barulho”)… Como dentro do estúdio é possível ver a técnica através de dois monitores de LCD (e também o contrário), depois de cantar o primeiro take da voz, o Sérgio do Gravaêh percebeu que ela estava nervosa, mexendo as mãos e pouco solta ao cantar. Então a mãe perguntou: “ela nos vê aqui?” – “Sim”, respondeu o Sérgio. Imediatamente saíram do ônibus e “sumiram”. Foi um suficiente para a Eduarda abrir um sorriso e cantar solta.

Imagino as pessoas perguntando para os pais da guria: “Bah, sua filha canta bem?” – “Não sei, nunca ouvi!”

Resumo da gravação: não se espante se um dia ouvir esta guria numa rádio.

 

Gravaêh – conhecendo Gisele Ribeiro


Gisele Ribeiro no Estúdio Móvel Gravaêh

Gisele Ribeiro no Estúdio Móvel Gravaêh

Começando então as histórias do Gravaêh na Fronteira da Paz.

No dia da audição inicial do Gravaêh, tinha uma guria (mulher, mas chamo toda mulher de guria ou de menina – isto quando morava na Bahia, agora agauchei de novo) loirinha, baixinha quietinha, que havia ficado como suplente: Gisele Ribeiro.

Acabamos conversando e ela se mostrou até meio desesperançosa, pois tinha gravado uma música para enviar com um sobrinho, de forma bem artesanal, ele não pode ir na audição… ela estava de suplente, iria ficar apenas um dos dois… então eu disse a ela que a acompanharia, tínhamos duas semanas para ensaiar e daria tempo de preparar as duas músicas, ainda mais se fossem apenas voz e violão.

Bom, acabei saindo um pouco mais cedo e não fiquei sabendo se ela “passou ou não”. Uns dois dias depois ela entrou em contato comigo toda feliz e, sim, tinha sido aprovada! O pessoal do Gravaêh preferiu dividir o tempo com os dois suplentes, então ela poderia gravar duas músicas – desde que em voz e violão.

Marcamos então para ensaiar, eu precisava conhecer e “tirar” suas músicas. Umas três horas e tínhamos um norte… aí marcamos para o fim de semana (sábado e/ou domingo) pois durante a semana sempre poderia haver algum imprevisto, e ela gravaria já no outro sábado pela manhã.

Bom, sábado não recebi notícias dela, fui abrir o email lá pelo meio dia de domingo e… ela tinha pego uma baita gripe e dor de garganta, mal tinha voz. Não tinha-se muito a fazer a não ser cuidar-se… prometi gravar as bases para ela ao menos ir treinamento mentalmente, mas na correria também só consegui fazer isto na terça e quarta, respectivamente. E dormi tarde, pois pensa num bicho perfeccionista até pra fazer uma gambiarra…

Enfim na quinta ela já estava melhor e fomos ensaiar. Três vezes cada música e eu já dei um basta – primeiro porque ela não podia abusar, tinha que repousar mais um pouco, e segundo porque… bem, porque não precisava, a guria é boa demais!

Gisele Ribeiro & Yo, el amante latino de la canción

Gisele Ribeiro & Yo, el amante latino de la canción

Fomos então no sábado para a gravação. Fomos os primeiros de fato, pois na sexta o ônibus atrasou para chegar. Um pouco de “frio na barriga”, o tempo ficou curto e acabamos gravando apenas uma música, mais saiu bem. Poderia ter ficado melhor, até fiquei de regravar a base do violão mas não consegui encaixar isto noutro horário (o tempo do estúdio é bem rígido e corrido).

Fiquei muito honrado em conhecer esta guria, uma voz maravilhosa, uma inspirada compositora – e ainda na minha “ousadia” meti uma voz de “amante latino” na gravação da música em espanhol, “Dáme una oportunidad”. Não tenho lá uma voz de radialista… mas quebrou o galho.

 

Gravaêh na Fronteira da paz


Gravaêh na Fronteira da Paz - 1

É interessante como as coisas importantes batem à nossa porta para avisar: rapaz, você não pode me esquecer. Assim é a música para mim, dou uma parada, envolvido com trabalho, prole, etc e batatinha… mas ela vem e me lembra que não vivo sem ela. Apenas sobrevivo.

Tenho muito claro que não sou um grande músico, menos ainda um grande cantor, mas herdei o ouvido de meu violeiro pai, e tenho algum valor como compositor. Caseiro como sou, não sirvo para a vida de músico – viagens, bares, e por aí vai. Agora, o convívio com os músicos e brincar de tocar e cantar é algo que faz sentir-me vivo.

Então, como já comentei noutro post (GRAVAEH – ou “sim, eu vou para um estúdio de verdade”), acabei me inscrevendo e sendo selecionado pelo projeto GRAVAEH. Mas realmente não esperava que fossem dias muitíssimo divertidos, além de ter cultivado uma bela amizade com a “trupe” da turnê, os “três homens em conflito” mais o motorista.

Eu tinha intenção de escrever todos os dias, mas foi muito corrido… além disso, são várias pequenas histórias para contar, então vou dividir em alguns posts, a começar por este.

 

Gravaêh – ou “sim, eu vou para um estúdio de verdade”


Eis que passeando pela páginas do Jornal A Platéia encontrei uma reportagem sobre o Gravaêh, projeto da ONG Cirandar, que dispõe um estúdio móvel para gravação no interior do estado.

Lá fui eu, fiz a inscrição… o prazo foi prorrogado, eis que no dia 30mar2011 recebo uma ligação, DDD 51… Era o Sérgio, do Gravaêh, informando que eu tinha ficado entre os dez selecionados. Eu já tinha visto o resultado no site no mesmo dia… claro que fiquei muito feliz. Marcado então para sexta-feira PRIMEIRO DE ABRIL (poxa, até o último momento ficou a dúvida…), a primeira reunião/audiência.

Primeiro “problema”: foi marcado no Teatro de Santana de Livramento – eu até perguntei pro Sérgio, não é na Sala de Cultura? Não sou santanense, mas… não lembro de ter ouvido falar que há teatro em Santana. Bom, era na Duque de Caxias, então ou era lá ou era perto. Fui. O aglomerado de jovens com violões me fez desconfiar do lugar correto. Ok, era lá.

(Mas isto fez algumas vítimas. Sim, algumas pessoas esperaram na esquina, na Sala de Cultura…)

Lá fomos. Muita gurizada, alguns veteranos… o foi projeto apresentado pelo prefeito da cidade Wainer Machado e o secretário de cultura, Maurício (algo assim). O prefeito fez questão de dizer quanto foi investido para trazer o projeto para cidade: R$ 7.800,00.

Aqui cabe mesmo um parênteses. Foi o empenho do prefeito e da secretaria de cultura que trouxe o projeto para cidade. A PRIMEIRA prefeitura a abraçar o projeto, e ajudar a bancar os custos de viagem e hospedagem dos técnicos. Nas outras cidades tudo foi bancado pela ONG Cirandar através de seus patrocinadores. O pessoal da Cirandar foi muito enfático em agradecer o apoio que estão recebendo da prefeitura, e este gesto abriu o interesse de outras prefeituras em fazer o mesmo – o que permitirá levar o projeto a outras localidades. É bom ver boas atitudes das administrações públicas, e confesso que nem sei o partido da administração atual, e nem me interessa. Adiante.

Após a apresentação inicial, marcação de horários (são 4h para 2 músicas, 3 se for apenas voz e violão), começaram as audições, que na verdade são para preparar os arranjos e repassar os detalhes para que os músicos possam chegar mais “afiados” possíveis para a gravação. Apesar do pessoal querer brincar fazendo um clima de “Ídolos”, só teve mesmo para o pessoal que ficou como suplente – dois candidatos para uma vaga…

No fim, melhor foi ouvir as histórias do gremista Sérgio no show do Iron Maiden. Disse ele que ia colocar o vídeo feito no avião na volta… ninguém merece metaleiro doido em avião. Sei que os(as) comissárias(os) de bordo não vão esquecer tão cedo. Ah, não vão. E também, claro, as histórias traumáticas de algumas gravações do Gravaêh… afinal, nem tudo são flores.

Agora, treinar, exercitar, repetir incansavelmente e “quedar listo” para o dia da gravação. Quem sabe até acompanho uma das suplentes… bom, ainda não sei. Ela merece…

Em tempo: além do estúdio móvel, o caminhão tem uma biblioteca móvel para contação de histórias e um telão para apresentação de filmes e afins. Com apoio da Prefeitura, a biblioteca ficará disponível simultaneamente ao estúdio, o que normalmente não é possível. E também escolas municipais vão conhecer o projeto, talvez estaduais também. Será um evento bem interessante, e a entrega dos CDs deverá ser no Parque Internacional.

Até lá!

 

Senhorita, senhorita


Senhorita, senhorita,

Desde sempre és assim tão bonita?

Assim és, a verdade seja dita

Cantada, pintada e escrita.

Coisinha Bonita


Rafael Goulart 22NOV2009 01:56h

Para Larissa – aka “Kika Maria”

Vou confessar uma coisa
Sentimento
Que eu não consigo mais
Não dá pra disfarçar

É uma coisa que mora
Aqui dentro
Que nunca vai partir
Não vai me abandonar

Coisinha bonita!!
Coisinha bonita!!

Quando lhe abraço
É com muito cuidado
Pois se apertar demais
Parece desmanchar

Quando me olha
Atravessa meu peito
E quando sorri, nem percebe,
Que vai me desmontar

Coisinha bonita!!
Coisinha bonita!!

E essa é a coisa tão bonita
Que ilumina meu cantar
E essa é a coisa tão bonita
Que me ensina o que é amar

Vou confessar
Que não durmo direito
Se não rezar por ela
Na hora de deitar

E pra não faltar-me
Nem força, nem coragem
Pra ser o que devo a ela
O que ela precisar

Coisinha bonita!!
Coisinha bonita!!

E essa é a coisa tão bonita
Que ilumina meu cantar
E essa é a coisa tão bonita
Que me ensina o que é amar

Vou confessar uma coisa
Sentimento
Que eu não consigo mais
Não dá pra disfarçar

É uma coisa que mora
Aqui dentro
Que nunca vai partir
Não vai me abandonar

Coisinha bonita!!
Coisinha bonita!!

Como se fosse sempre a primeira vez


Rafael Goulart, 21NOV2009 07:47h

Conta outra história
Mesmo uma que eu
Já sei de cor
Cada vez que ouço
Me parece tão melhor
Te ouvir
Mais uma vez
É… como se fosse sempre
A primeira vez

Fica mais um pouco
Vamos ver nascer o sol
Sob a luz do dia
Me parece tão melhor
Te ver
Mais uma vez
É… como se fosse sempre
A primeira vez

Quanta surpresa te encontrar aqui
Parece às vezes que nunca te vi
Quer saber
É melhor assim

Senta aqui mais perto
Pr’eu sentir você e só
Com você ao lado
Me parece tão melhor
Sentir
Mais uma vez
É… como se fosse sempre
A primeira vez

Vem nascer comigo
Vem criar um brilho maior
Ao caminhar contigo
Me parece tão melhor
Viver
Mais uma vez
É… como se fosse sempre
A primeira vez

Vou fechar os olhos
Vou calar a minha voz
Só com minha mão na tua
Me parece tão, tão maior
Te ouvir, te ver, sentir, viver
Mais uma vez
Te ouvir, te ver, sentir, viver
Como se fosse sempre
A primeira vez