
Leco Cavalheiro, lenda da fronteira da paz
Toda cidade tem um louco, um gênio, e um incompreendido.
Talvez a fronteira da paz, esta querida Santana do Livramento, seja uma das privilegiadas de ter todas estas figuras simbólicas em uma pessoa só: um tal de Leco Cavalheiro.Qualquer coisa que for escrita sobre o Leco seria pouco, até porque tive um rápido convívio com ele. Mas deixo aqui minhas impressões e, concomitantemente, homenagem.
No dia da primeira audição do Gravaêh, sentei estrategicamente nem muito ao fundo, nem muito à frente (naquela posição precisa onde você nem parece CDF, nem parece da turma do fundão). Após a apresentação do prefeito da cidade, secretário da cultura, blá, blá, blá, o pessoal do Gravaêh tomou a palavra, explicou a organização que haveria e então foi-se discutir o horário de cada banda/música na semana de gravação. Naturalmente o fim de semana seria disputado, mas como sou freelancer e tenho flexibilidade, já me dispus para segunda pela manhã (ser o primeiro também é pedreira, já que começariam na sexta anterior). Aí surgiu um problema com um doido.
O doido tinha um problema criminal, ou carcerário: o baterista (ou baixista, não lembro) era agente penitenciário, e não sabia ainda de sua escala. Ou seja, se marcasse com antecedência (seria dali a duas semanas), poderia não poder. Então, como para mim ir na segunda ou na quarta seria indiferente, rápido como Clint Eastwood em “Três Homens em Conflito” (opa, post errado, isto é assunto para outra conversa) saquei meu cartão e entreguei para ele. Pedi que ligasse e se preciso, eu trocava de horário com ele. Bom, uns dias depois o doido me ligou. Putz, ficamos quase uma hora no celular. Eu me despedi umas 5 ou 6 vezes até conseguir desligar. Credo! Como fala! É um cara muito intenso.
Pausa. Nas vésperas do Gravaêh liguei de volta, pra confirmar se haveria a troca. Aí ele me disse que não me preocupasse, ficaria na quarta mesmo, pois acabou “despedindo” a banda inteira e pegando outros músicos.

Sim, isto é fake. Gesse, Leco e Sérgio
Na segunda à tardinha, fui ali na praça General Osório para tirar as fotos do pessoal que estava gravando – como o pessoal do Gravaêh estava sem máquina fotográfica, fiquei de fotógrafo semioficial (semi pela falta de competência, uma vez esqueci de recarregar as pilhas, na outra esquecei o cartão de memória). E chegou o doido: agora melhor apresentado como Leco Cavalheiro. Halley era um dos codinomes da figura.Como a banda que estava tocando no turno da noite estava engasgando para fazer a trilha suja, começou a ficar maçante… aí o Leco já pegou o violão do Sérgio do Gravaêh e começou a tocar algumas coisas. O Sérgio então aproveitou o microfone que estava na mesinha do lado de fora, plugou o violão e aí começou o improviso do Leco.

Galera posando para o "tiozinho" fotógrafo (é, já sou "tiozinho")
Bah, juntou até uma galera que estava meio que saindo escondida da escola (pareceu-me, me perdoem se dou um falso testemunho). Todo mundo dava uma parada para olhar. E eu e o Sérgio, além do meu filho Bernardo, nos divertindo a beça.
Teve até versão dos Beatles, “Tava tri” (“Let it Be”). E claro, apareceu aí um doido “oficial”: o Bira. Este já um tanto quanto alterado por alguma substância alcóolica de origem desconhecida, portando uma indefectível camiseta do Sepultura. Além de, claro, uma originalissima dança misturando capoeira, jazz contemporâneo e o balanço característico proveniente do estado ébrio em que se encontrava. Até trova para ele o Leco fez.

Bira, o metaleiro capoerista

Alfarrábios versão 87.5b
“Pensam que esta história se estanca por aqui? Pensam? No!!! Esta história se estende!!!” (livre referência ao Tango e Tragédias).
Lá então na terça à tardinha, novamente eu fui para tirar fotos dos “gravantes” do Gravaêh. Aí o Sérgio me chamou para o Teatro Municipal na frente, onde o Leco estava ensaiando com a banda “nova” (é, um dia antes de gravar). Lá fomos eu e meu filho Bernardo novamente.
Apesar do som horrível (uma caixa Meteoro clássica – eu tive uma dessas!! e outra para baixo da Moog, onde também estava o microfone de voz… nossa), da bateria semivirtual do Gesse (caixa e cimbal, mas ele fazia o resto das viradas no ar, algo lendário), foi fantástico. O coitado do gaitista (gaita de boca), este desistiu, não tinha como, não se ouvia nem ouviam ele. Mas gravou no outro dia. Mas tinha um carequinha lá no fundo, com um violão Di Giorgio ligado numa pedaleira e na caixa Meteoro. Perdido, parecia. Meio desconectado, parecia. Num mundo só dele, parecia. Era o Régis.

Régis. É, o Régis.
Aí a gente se questionou o que aquele cara fazia ali. Até que o Gesse, baterista, “cutucou” o cara e ele começou a tocar… bah, não, começou a tocar MUITO. Mas MUITO. Mas MUITO MESMO. Não apenas numa técnica impressionante, quase acrobática, mas com uma velocidade estonteante. Não satisfeito, o Gesse falava “mais cadenciado”, mudava um pouco o ritmo e o Régis se adaptava e faziam os dois sozinhos o barulho.
Uma pena que o som estivesse tão ruim enquanto eu gravava na câmera. Não vale a pena nem colocar no Youtube assim, não faz juz ao talento do Régis. Nem ao talento cênico do Gesse (aliás, também um ótimo baterista, com uma caixa e cimbal faz mais do que muitos não fazem com uma bateria completa). E essa foi a banda do Leco Cavalheiro. No dia seguinte, ele ainda ganhou uma aposta como Robson, diretor musical do Gravaêh, quando disse que gravava uma música em menos de duas horas. E gravou. Com músicos fantásticos, que ensaiaram só uma vez.
É duro às vezes ver que tanta gente mais ou menos ganham uma imensa produção e parecer tão “ohhhh”. E tantos músicos fantásticos estão aí ralando nos bares. E em todos os estilos. Aqui nesta fronteira distante, quase Uruguai, meio lá, meio cá, encontrei tanta gente boa, excelente, tocando e cantando com uma impressionante competência, cada um no seu estilo. De várias idades… mas isto complemento em outro post.
Mas o mais impressionante, não apenas para mim, tenho certeza, é o Leco Cavalheiro.
Acho que o que resume este cara é a conversa que eu e o Sérgio tivemos no meio da barulheira do ensaio:
- Este cara é um gênio incompreendido – disse o Sérgio.
- E incompreensível – completei eu.
(Mais fotos na sequência.)

Leco, a aparição.

Bira num êxtase musical-etílico, não necessariamente nesta ordem.

Gesse, um baterista muito bom e muito louco (também não necessariamente nesta ordem)

Está ouvindo a gaita? Nem o gaitista...

Régis e Gesse. Mui grato por ser sua platéia.
Post fantástico e brilhante sobre a genialidade por trás do Leco e sua banda. Definitivamente, Leco é um gênio imcompreendido…
Olá pessoal,o leco e meu mano o que falar deste genio.Eu e o leco morávamos na 24 de maio nos anos 70,sempre fizemos som juntos e até umas músicas.Mas eu vim para Porto Alegre,mas ainda recordo das histórias que fizemos.Amigo,irmão Leco estou com saudades.Um abração bebeto bolina