Aquelas Histórias (Memórias do Kao)


Rafael Goulart (09, Abril, 1994)

Quando fui morar em Cacequi, minha turma restringia-se a 4 pessoas: o Solon, o doido que dividia o apartamento comigo (entramos juntos no Banco do Brasil), o Ducos (que era pra dividir o apartamento também, mas resolveu ficar em hotel), e os irmãos Carlos Alberto (Kao) e Nésio. Estes dois eram agrônomos/engenheiros agrônomos e através de sua pequena empresa – a Planter – prestavam serviços aos arrozeiros da região, ferozes no seu fusquinha. Por isso circulavam lá pelo BB. Nésio era mais novo e mulherengo; Kao era era mais velho, casado, porém estava lá trabalhando longe da família, a Marucha (sua esposa) e filhas.

Várias vezes nos reuníamos na Planter para comer um arroz de “China Pobre” (arroz com lingüiça) magistralmente cozido pelo Nésio. Eu o Ducos tocávamos MPB, bossa nova (ele era um colecionador) e mostrávamos nossas músicas (Ducos também compunha). O Nésio por vezes também desempoeirava sua gaita ponto, era muito bom. Bem lembro de uma vez que o Lambari (cantor da região, que voz belíssima!) esteve lá conosoco e eles tocaram “Percanterio” do Elton Saldanha… putz, que bons momentos passamos isolados naquele fim de mundo, todos querendo estar cada qual na sua terra, mas curtindo os amigos novos que encontramos. Pouco tempo depois fiz uma música citando esta turma, Vou Pra Santa.

Mas agora me detenho no Carlos Alberto, ou Kao. Figura memorável! Um copo e um maço de cigarros eram suficientes para uma noite de conversas filosóficas: “O que seria do azul se não fosse o amarelo?” Era adorável ao contar suas histórias (eu é quem tinha mais paciência para ouvir…), que sempre davam voltas e mais voltas, e mesmo a mais simples tomava contornos poéticos, verdadeiras epopéias… Três delas, de três fases de sua vida, registrei nesta música. A mais bonita é a última: estava num fim de baile, e, naquela última volta, encontrou um grupo de garotas (“oásis de mulheres” nas suas palavras), pediu para dançar com a mais bonita e… era “Marucha”, com quem se casaria e teria suas filhas.

Tive a feliz oportunidade de tocar esta música para seu pai, que ficou encantado e chateado – em função da referência à bebida.

Kao disse-me algo certa vez que guardo até hoje: “As músicas estão no ar. Algumas pessoas, como você, tem o dom de captá-las e trazê-las para terra. Mas, se você não fizer, outro com o mesmo dom vai acabar fazendo.” As palavras não são bem essas, mas essa é a idéia. Muitas vezes tenho a impressão de que meu amigo Kao está completamente certo.

PS: Um conhecida um dia ficou encantada com minha capacidade de contar histórias. Eu falei para ela contar as suas, ela respondeu que não tinha histórias para contar, que eu tinha vivido muito mais. Então lhe respondi: você tem histórias, só acha que não vale a pena contá-las.

Letra

Eu quero ver você contar
Aquelas histórias de criança outra vez
Com romantismo relembrar
Ingênuas coisas que se fez

Lembrar da musa da escola
Ah, que nunca nos deu bola
E que atiçou nossa libido
Mesmo que nem desconfiássemos
Só bem mais tarde descobríssemos
O que vinha a ser aquilo

Eu quero ver você contar
Aquelas histórias de adolescente outra vez
Com romantismo relembrar
Ingênuas coisas que se fez

Lembrar roubar do avô o carro
Ter o trabalho de empurrá-lo
Para não acordar o dono
Mas não saber ligar, que esperto
E conseguir ser descoberto
E ainda escapar da surra como

Eu quero ver você contar
Aquelas histórias de homem feito outra vez
Com romantismo relembrar
Ingênuas coisas que se fez

Lembrar de um fim de baile então
Última volta no salão
Para ficar com a garota que encontrar
E num oásis de mulheres
Pedir a mão da que quiseres
E ainda levá-la para o altar

Eu quero ver você contar
São quantas vezes que o garçom botou mais um
O copo lhe faz filosofar
Pôr poesia no que é comum

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>