Ciúmes


Rafael Goulart (26, Outubro, 1993)

A mesma garota de Nunca Mais gerou-me um dos sentimentos mais marcantes que já tive: ciúmes. Não sou ciumento, talvez até um pouco no outro extremo, e também nunca tive problemas ou razões para isso – a não ser desta vez. Já havíamos nos afastado a algum tempo (mais de ano) quando ela começou um relacionamento que… bem, mexeu MUITO comigo.

Fiz uns versos, lembro bem pois estava na casa de Mariana, na época minha melhor amiga. Ela acompanhou parte de meu transtorno. Márcio chegou a ler e musicar, mas não gostei. Não lembro mais como foi, mas estes versos ficaram no meio da música. A harmonia é simples, mas numa análise mais aprofundada é possível perceber o uso redondo de cadências/seqüências estudadas, sem exageros. Pois a força da música é a letra. Aliás, considero uma das letras mais fortes que já escrevi.

Quis passar toda a ambigüidade, toda contradição que os ciúmes nos trazem. A confusão que dá vontade de gritar e ficar em silêncio, xingar e pedir desculpas… que sentimento tolo.

O mais interessante é que esta canção foi uma catarse. Terminei de escrevê-la e o sentimento ruim foi embora. O que ficou se resume na seguinte frase: “Se não vamos ficar juntos, e gosto tanto dela, porque não querer que ela seja feliz com outra pessoa?” A partir deste momento, comecei a compreender um pouquinho o que é o amor; até hoje não sei direito, mas uma coisa ficou clara: o amor é generoso e não possessivo.

Pouco tempo depois ela separou-se do parceiro e disse que gostava muito de mim, chegamos a trocar alguns chamegos… Percebi que vencer o ciúme foi algo válido, pois guardei o que houve de bom nesta história, e que deixei, espero, boas lembranças com ela. Há mais de 10 anos não a vejo, e não tenho mais notícias suas.

Quando gravei uma fita com minhas canções em 1997, fiz um arranjo com duas vozes que me marcou muito. A gravação ficou excelente, não tecnicamente pois a limitação era grande, mas o violão certinho, a primeira e a segunda voz equilibradas, não apenas aquela coisa de terça/quinta… não sou bom nisso, mas gostei do efeito. E eu gravei a segunda voz colocando a saída do microsystem na mesa e cantando assim. Ficou legal, e vou tentar repetir o feito em mp3.

Letra

Não fale, não minta não venha
Não traga as histórias que tenha
Me deixe com minhas verdades
Me deixe com minhas verdades

Não diga porquê, não explique a razão
Não busque acalmar a situação
Me deixe com meus fatos
Me deixe com meus fatos

Não compreendo e não admito
Não perdôo e não acredito
Me deixe com meus ciúmes
Que são só meus ciúmes
Que são só meus

Não traduza, não seja cooerente
Não conte o que aconteceu realmente
Me deixe com minhas realidades
Me deixe com minhas realidades

Não interprete não argumente
Não fale as coisas claramente
Me deixe com meus roteiros
Me deixe com meus roteiros

Não compreendo e não admito
Não perdôo e não acredito
Me deixe com meus ciúmes
Que são só meus ciúmes
Que são só meus

Coisa que surge
Descontroladamente
Que ruge, que urge
Fanaticamente
Que zomba tonteia
Que desnorteia
Que amarra, amordaça
É a força do Ego
Poderoso e cego
Armando trapaça

Se te adoro e te odeio
Se te faço rodeios
É porque ele desune

Se te explico e complico
Se elogio e critico
É porque ele resume

Se te nego ou te imploro
Se te canto ou te choro
É porque é meu ciúme

Que é meu
Que é meu

Não compreendo e não admito
Não perdôo e não acredito
Me deixe com meus ciúmes
Que são só meus ciúmes
Que são só meus

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