Rafael Goulart (27, Abril, 2004 – 01:20h)
Duas semanas após eu ter me separado, estava na faculdade quando faltou energia; sendo à noite, logos os alunos “vazaram”, peguei uma carona e fui para a casa de meu amigo Marden, onde estava passando estes dias.
Peguei meu violão, afinador e metrônomo e fui estudar um pouco, e me acomodei em um dos dois pufs da casa. Meu amigo é professor da mesma faculdade, e uns minutos depois aparece Valéria, aluna dele, veio visitá-lo e a seu irmão. Ela é uma garota muito bonita mas um turbilhão; não pára quieta um minuto. Até que ela me enxergou tocando violão e se atirou no outro puf, derrubando o metrônomo e o afinador, ficou meio sem jeito e pediu-me para tocar uma música. E vinha e voltava me pedindo para tocar esta ou aquela música, sempre alegre e sorrindo. Eu fiquei meio atordoado, sem saber direito como agir, estava meio feliz e meio perdido, atendendo a seus pedidos, muitos me fazendo revolver minha memória…
Sempre fui muito arisco para tocar em público, uma chatisse mesmo. Lembrava sempre de meu pai, este sim violeiro, que estava sempre disposto a animar as festas de seus amigos com seu violão. Eu não, nunca me vi assim. Apesar de tudo, foi a mim que meu pai deixou seu ouvido excelente. Meu irmão Gilmar sempre se frustrava com isso, por outro lado, sua impressionante dedicação e disciplina lhe colocaram num patamar que nunca vou alcançar com o dom que herdei – a não ser que me dedique da mesma forma. Deus não dá asas a cobras…
Mas, voltando, estes meus 10 segundos com Valéria (sempre brinco que é o máximo que alguém pode conseguir dela, logo então ela desaparece…) me fizeram muito, muito bem. Na verdade, me fizeram compreender algo que meu pai tentava me passar na sua simplicidade, na sua eterna boa vontade de tocar aonde quer que fosse: o prazer de tocar para agradar a alguém, aos outros, e não apenas a si mesmo. A delícia que é atender o pedido de alguém, mesmo que não seja um “concerto”, mas uma lembrança entrecortada de acordes, letras, mas juntadas pela boa vontade de agradar.
Este foi o maior presente para mim de Valéria para mim, mesmo que ela nem percebesse (“e nem percebe o que é ter / um simples momento seu”), e fiquei matutando que deveria fazer uma música para ela, mas deixei de lado.
Umas três semanas depois eu estava saindo para a faculdade, peguei o violão e me veio a harmonia, melodia e o início da letra, tudo de sopetão, mas não tinha tempo, precisava sair, pegar o buzu! Quando cheguei em casa, que desespero, havia esquecido!! Mas dias depois, já instalado em meu novo canto, fui vasculhar a memória pela música. Bem, estava lá, e a terminei.
Ela é um agradecimento, e fiz questão de dar a ela num CD. Mas não tinha coragem, eu estava muito deprimido e isto era algo demais para mim naquele momento. Carreguei minha aparelhagem (mesa de som, amplificador, pedestal, microfone e violão) até o escritório de minha frustrada empresa para gravar em meu computador. Foi meio tosco, mas ficou bom. Escrevi uma carta, coloquei num envelope e pensei: “putz, como vou entregar isto?” Pedi então ao meu amigo Marden, o professor dela, para entregar. Assim o fez. Uns dias depois, acho que uma semana creio, eu já havia esquecido do que havia feito, quando na entrada da faculdade ela me pára e começa a dizer que adorou a música, me dá um abraço, diz que está toda nervosa, tremendo, que ouve a música o dia inteiro, que mostra para todo mundo… Eu consegui estar menos ansioso que ela naquele momento (o que me parecia ser impossível).
O nome da música – Vendaval e Carnaval – é uma menção ao seu nome e ao seu jeito, sempre alegre e voante – passava voando, quase que literalmente. A letra faz lembra do dia, frisando o “apagão” na faculdade, a impressão que ela deixa ao passar, e por aí vai. É engraçado que às vezes em momentos ruins de nossa a vida alguém que nem conhecemos, de uma forma completamente adversa, nos faz recuperar algo ou encontrar algo que é exatamente o que precisamos naquele instante. Duas semanas depois, eu estaria me reencontrando com a composição, após longos 9 anos de desencontros.
Gosto muito desta música, é muito sincera, e o melhor é que fui extremamente feliz em agradar a quem devia. A letra é simples, a harmonia é bem cuidada, o sentimento é real e verdadeiro. Bom, Valéria é uma garota realmente inspiradora, e ainda compus duas músicas inspiradas nela (diadosnamorados e ultimacancao). Isto lhe põe num honrroso “2º lugar” no rol de minhas musas inspiradoras, atrás apenas de Mariana (com quem fiquei quase dez anos…).
MP3
Uma mesa de 6 canais Staner, Microfone Leson SM58, Violão Eagle com cordas de aço. A mesa ligada diretamente no computador, rodando o Cakewalk, um canal apenas. Foi aplicado apenas um reverb sobre tudo. Gravado num escritório com uma acústica terrível, então…
MP3 – Rafael Goulart – Vendaval e Carnaval
Letra
Foi um vendaval
Foi um temporal
Que passou por mim
Foi um carnaval
Foi um riso tal
Que alegrou-me assim
E eu nunca pude agradecer
A força que ela me deu
E nem percebe o que é ter
Um simples momento seu
De um apagão
De uma escuridão
Veio esta luz
Que com o caminhar
Com o simples passar
Encanta e seduz
E eu nunca pude agradecer
A força que ela me deu
E nem percebe o que é ter
Um simples momento seu
E sem ter as respostas
Me calou as perguntas
E sem fazer apostas
Foi a sorte profunda
Sou grato
Sou grato
Uma timidez
Confesso a vocês
Me surpreendeu
Um encabular
Quando meu olhar
Procurou o seu
E eu nunca pude agradecer
A força que ela me deu
E nem percebe o que é ter
Um simples momento seu
E sem ser uma amante
Foi inteira comigo
E por um curto instante
Foi um colo amigo
Sou grato
Sou grato
Foi um vendaval
Foi um temporal
Que passou por mim
Foi um carnaval
Foi um riso tal
Que deixou-me assim
E eu nunca pude agradecer
A força que ela me deu
E nem percebe o que é ter
Um simples momento seu
E eu nunca pude agradecer
A força que ela me deu
E nem percebe o que é ter
Um simples momento seu