Amar, verbo incompreendido


Muitas vezes fui tachado de romântico por minhas músicas, mas uso pouquíssimo o substantivo amor, o verbo amar. E não o faço para não macular as palavras.

Não, não faço canções de amor. Este sentimento fugaz e explosivo, que tanto inspira poemas e canções, é paixão, e não amor. Se isto inspira algumas boas canções e outras nem tanto, então, que venham, mas não se iludam leitores e ouvintes: não são canções de amor.

Não se pode chamar de amor algo que não passa de uma emoção de verão, um deslumbre adolescente, uma luxúria desmedida, uma obsessão cega e doentia. Não se pode chamar de amor algo que prende o outro, algo que condiciona a felicidade a presença do outro. Algo que obriga outro a satisfazer-ME. Algo que leva ao suicídio se não está com o outro. Amor não dói, e principalmente, não faz doer.

Uma amiga que optou por não ter filhos (o que, racionalmente, creio que qualquer pessoa faria, se olhar para o mundo de modo cru e realista), certo dia me disse que a única coisa que tinha pena é que não conheceria o “amor incondicional”, o amor materno.

Também sou obrigado a dizer: não existe nada mais condicional que amar seu filho, posto que se ama pela própria condição de ser “SEU” filho. De um mestre uma vez li que não há mérito em amar aos seus, pois até os pecadores amam aos seus. Um bandido, um traficante protege, “ama” a seus fiilhos. Perdoem-me se pareço drástico, mas isto é apego, e não amor. Não que não se possa ter amor nesta relação pai-filho, mãe-filho; apenas nos iludimos que amamos, e mal-educamos nos filhos em nome do amor. O mais simples exemplo disso é que o amor não escolhe, quem escolhe são as pessoas que não sabem amar, que optam por amar a um e não a outro. Uma parábola conta que duas mães estavam dentro de casa enquanto seus filhos de mesma idade brincavam na rua; ouviu-se um grito de dor. Correm as mães para fora, uma das crianças se machucou, ambas as mães correm para abraçar seus filhos – e a mãe cujo filho não se machucou pensa de imediato: “Que bom que não foi meu filho!”. Quantos de nós temos esta reação em momentos de tragédia? Quantos de nós realmente conseguimos ver a todos com a mesmo preocupação? Ok, é uma utopia.

O egoísmo é tanto no ser humano que nem amar a si mesmo é algo simples. A cacarejada auto-estima, o amor-próprio (ah! maldita nova ortografia, errei ou acertei o hífen?)… são desculpas para nosso próprio egoísmo, infelizmente sedimentadas cientificamente e ainda pior, incrustradas no senso-comum. Valorar-se (não gosto de usar o termo valorizar-se) é um processo auto-estima verdadeiro, de estimar-se em pontos positivos e negativos, não enganar-se, é um verdadeiro ato de amor por seu próprio ser. Amar-se é reconhecer-se falho, mas não sem perder a justa esperança de que podemos melhorar sempre e sempre.

Amar é uma atitude, e mas não é possível taxar todos os atos de amorosos ou não-amorosos. Existe amor no “não” e existe amor no “sim”. Existe amor no abraço e existe amor no tapa (por mais politicamente incorreto que possa soar, por mais que isto possa suscitar deduções equivocadas). Existe amor em estender a mão e existe em virar as costas. E pode não existir amor em nada disso.

Às vezes vemos um pai ou uma mãe sendo severo, até grosseiro com seu filho na rua, e cada um de nós pensa ou “é um absurdo” ou “é isso mesmo, tem que educar”. A verdade é que ignoramos, não sabemos o histórico, não sabemos o que se passa no interior do pai/mãe naquele momento para julgar. A verdade é que não temos parâmetros para julgar nem se nossos atos são de amor, quanto mais os atos dos outros.

O amor não é compreendido, mais do que isso, é incompreensível. Incompreensível porque tentamos utilizar nossa linguagem humana limtada para explicar algo que só pode ser compreendido por sentidos que atrofiamos, que não valorizamos. É como se para enxergar precisássemos fechar os olhos, para ouvir cerrar os ouvidos, para degustar um odor prendêssemos a respiração…

É preciso explicar o amor com silêncio, é preciso ouvi-lo sem que seja dito. É preciso enxergá-lo onde parece não existir, expressá-lo sem gestos… É preciso sentir e fazer sentir.

Amar é verbo
De perfeita conjugação
Sem pretérito ou futuro
Sem antes ou depois
Posto que é aqui para sempre
Um eterno presente

Não existe amei, amaste, amou
Amamos, amastes, amaram
Pois se deixou-se de amar
Nunca foi amor

Amar não admite
Advérbio de intensidade
Não se ama mais ou menos
Melhor ou pior
Pouco ou bastante
Posto que amar
É por si só suficiente

Amar não é substantivo
Próprio ou impróprio
Masculino ou feminino
Singular ou plural
Não cabe em dicionário
Posto que é indefinível
Impossível limitar em definição
Algo que existe sem limitação

Amar
É a preposição final
O prefixo e o sufixo
A conjunção que nos une
Palavra tão completa
Que sozinha encheria
Frases,
Páginas,
Livros,
Estantes,
Bibliotecas,
Simples assim:
Amar.

( Rafael Goulart, 04mai2010)

Isto é um desabafo. Um desabafo de alguém que ao parecer desesperançoso no amor, na verdade continua em busca de compreendê-lo, de transformá-lo em atitudes reais, que façam não parecer hipocrisia quando abraço meus filhos e lhes digo:

“Eu te amo”.

 

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