Não costumo fazer planos. Para todo ano, mês, e gostaria também cada dia, tenho metas, nortes, destinos… mas não planos. Coloco-me metas pois quem não sabe onde quer chegar nunca sabe se teve êxito (ou: pra quem não tem rumo qualquer caminho serve…). As metas podem mudar no decorrer do caminho, conforme o desenrrolar dos acontecimentos nos leva a alternativas diferentes… mas planos são coisas que nos levam a frustrações, pois quando nos vemos distantes deles… ou bate a desesperança, ou a frustração, ou começam as ladainhas… então, não faço planos. Me organizo, crio rotinas para atingir metas… mas planos, não.
Talvez quem leia possa perguntar: mas planejar é não importante para alcançar metas? Ah, claro! Mas aqui cabe uma diferença: destrinchar uma meta em passos, adequá-los conforme o andar da carruagem… não é do que falo aqui. Planos… são os “sonhos viajantes” que nos iludem.
Novamente o leitor pode questionar… e sonhar, não é preciso? Ah, claro! Sonhar é a mola mestra de nossa vida. Mas os “sonhos viajantes” a que me refiro, os planos inúteis… é que nos fazem criar expectativas inúteis. É imaginar estados de espírito com situações e descobrir que na hora “h” a coisa não é bem assim… (Um seriado tolinho chamado “As visões de Raven” fala muito disso… a menina tem visões e cria expectativas em cima delas – boas ou ruins -, mas ela só teve um flash, o que realmente acontece e principalmente o que sente não tem nada a ver com a imagem que ela criou…)
No ano de 2004 minha meta a atingir no final do ano foi: estar vivo e cursando a faculdade. Pouco? Estar vivo foi uma grande vitória… cursando a faculdade… em alguns dias contei o dinheiro do ônibus, lembro nos dedos os dias em que lanchei na cantina da faculdade… pagar a faculdade somente com a bolsa de mérito que consegui… no pior ano de minha vida, ainda ter que me concentrar para tirar boas notas…
… chegar ao final daquele ano foi sim, um cumprimento de meta importante.
2005 foi o ano em que eu precisava de uma luz no fim do tunel para sair do buraco. Ela veio, exigiu-me pôr meu rabinho entre as pernas, engolir o orgulho e iniciar meu processo de reconstrução. O final de ano me veio com um gosto de estar retomando as rédeas de minha vida, mesmo que numa história cheia de vírgulas e reticências.
2006… não lembro de pensar algo conscientemente para 2006. A única meta era algo que se encaminhava calmamente para seu desfecho: terminar a faculdade. Mas este ano foi um ano especial porque… foi o ano em que voltei a viver novamente. Ou em que descobri que nunca tinha vivido tão intensamente. Um ano que não tinha nada em mente… mostrou-se um dos mais importantes de minha vida – positivamente.
Enfim, 2007… Na “balada” do ano anterior, minha meta era… estar no final do ano em minha casa. Financiada, como bom brasileiro, mas… algo que eu pudesse chamar de meu. Havia uma sensação em mim dizendo que este seria um ano especialíssimo, cheio de coisas boas. Mas… ainda bem que não fiz planos. Logo nos primeiros meses vi que a meta estipulada não era o que o ano pretendia para mim. A pus em stand by. E fiquei esperando: que diachos vem por aí? Por que este ar de mudanças sem nenhuma definição?
O meio do ano começou a mostrar qual eram os “planos” do ano comigo, mesmo que repleto de pontos de interrogação intercalados por pontos de exclamação (eu, estupefato com os acontecimentos). Um ano repleto de portas abertas, escolhas que se mostravam ambígüas… então resolvi sentar e esperar as coisas se aclararem. No finalzinho (mesmo) do ano, outro acontecimento para fechar tudo com uma força extraordinária, a mostrar… é de novo contigo, carinha, mas… agora, até as metas do próximo ano ficaram obscuras.
Sempre que me perguntam o que mais importa para mim, respondo: meus quatro pilares, filhos, amigos, música… e ela (a mulher). Neste quarteto a principal falta sempre o último… certamente o mais difícil de “acertar a mão”. Mas… sempre o “mas”… Este final de ano desequilibrou meus pilares. Filhos… distantes. Amigos… sempre tantos, fiéis, amorosos, esta talvez a maior de minhas dádivas, a capacidade de atrair pessoas maravilhosas ao meu redor. Porém… aqueles que se mostraram ímpares nestes 4 anos duros… também tomando um rumo diferente. De repente, só “restou” a música… e me vi alguns dias mudo, surdo… nada ouvi, nada cantei, nada toquei. Um silêncio. Quase que simultaneamente, “ela”, o quarto pilar, me apareceu numa única e impressionante noite. Mas também, só.
Se tivesse feito planos, me imaginado brincando com meus filhos dentro de minha casa, curtindo minha namorada, amigos e fazendo um barulho com violão, guitarra, baixo e bateria… agora estaria completamente arrasado. Mas não… curti cada instante que estive com cada uma das pessoas que amo e fiz muitas coisas maravilhosas que há anos “sonhava” fazer em música, apesar das incertezas… não, este ano não foi perdido.
Talvez o leitor esteja crendo que este é um texto melancólico… engana-se. Não estou lastimando a “perda” de meus filhos, a “perda” de um grande amigo, a falta de inspiração musical, a “mulher de minha vida” que não aparece ou a incerteza profissional… não. Neste ano – e só depois que passei por isto compreendi sua importância – tive a oportunidade de passar por todas as principais cidades em que morei antes daqui de Barreiras – Santa Maria, Feira de Santana e Salvador – e em todas ouvi de meus amigos: volta pra cá. Inúmeras coincidências… Este foi um ano de reflexão, em que a vida parece que me tratou como um pai que cuida e educa o filho até certa idade e um dia larga sua mão e lhe diz: “pronto, agora que te acompanhei em todas as lições que precisavas é chegado o momento de ir em busca de teus sonhos… estarei aqui, sempre torcendo por ti, sempre ao teu lado, e sempre com a porta aberta para te receber num fracasso eventual, para um conselho a mais ou apenas para matarmos a saudade”. Aos 20 anos eu peguei minha mochila e caí numa cidadezinha perto do fim do mundo para começar minha história como “adulto”. Aos 31, me vi praticamente na mesma situação, mas sentindo que tudo o que havia “construído” havia sido me tirada abruptamente, que não teria mais rumo nem forças… e hoje, aos 35… a metáfora da mochila é a mesma. Mas… o mundo está aberto, e eu, com a mochila repleta de histórias e experiências. É…
… não tenho a mínima idéia do que o ano me reserva… mas ele que me aguarde…
PS: Dedicado aos meus amigos e a pessoas que mesmo por um pequeno instante me ajudaram a ser quem sou. A todas, lembro que o ano que vem é tão especial que lhe deram um dia a mais para aproveitarmos.