Dissonâncias

Segunda-feira, 1 de Outubro de 2007 -- em Mais do que tudo

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Rafael Goulart (06, Julho, 1994 – 00:38h)

Me perdoem se escrever demais, mas é preciso. Esta canção é muito, muito especial para mim, e não quero deixar escapar nenhum detalhe.

O ano é 1994, o mês é julho, o dia é 2. Um dia antes, sexta-feira, o governo FHC lança o Plano Real. Como bancário, fui obrigado a fazer plantão no sábado, e ficar meu primeiro final de semana em Cacequi. Mariana, minha melhor amiga, resolveu ir fazer-me companhia.

Lembro que fomos ao mercado, e ela voltou com o braço enrroscado no meu. Passou um colega do banco de carro, e fez a volta no quarteirão para conferir… cidade pequena é fogo…

Já estavam acontecendo os jogos da copa do mundo que o Brasil iria ganhar duas semanas depois. À noite, tranquei-me na cozinha e fiz umas pizzas brotinho de camarão. Ficaram ótimas. A partir deste momento começou a pintar um clima muito, muito forte. Mas um medo muito, muito grande. Éramos muito amigos, muito diferentes, e o medo de não dar certo, de dar certo de mais, de perder a amizade… era muito grande. Mariana deixou-me com a faca e o queijo na mão: bastava-me tomar a iniciativa. Olhando bem fundo em seus olhos, lembrei das palavras sábias de seu irmão Pedro: “de vez em quando a gente precisa ligar o botão do ‘foda-se’: você liga o botão e o resto que foda-se”. Foi o que fiz. E mergulhei naquela menina.

Foi um final de semana maravilhoso, mas cheio de medos. Não sabíamos no que iria dar, mas estávamos muito, muito apaixonados. Toda a amizade, mais de dois anos de convívio próximo, a morte de meu pai - foi em seu ombro que chorei pela última vez - os trabalhos de faculdade, tudo conspirava a favor e contra, ao mesmo tempo. Nos conhecíamos, tínhamos carinho, mas era um risco, e perder isto era muito caro. Mas, o que poderia nascer disto, que já tinha laços tão fortes? Não sabíamos. E este medo nos corroía.

Mariana retornou Santa Maria no domingo e fiquei lá, encantado e assustado, apaixonado e amedrontado. Não consigo lembrar direito, só lembro que na madrugada do dia 6 de julho minha decisão veio em forma de música: Dissonâncias.

Dissonâncias são acordes com mais de 3 notas que, ao ouvido comum, podem soar estranhos, mas geram uma harmonia diferente e bela, ao serem bem utilizados. São muito comuns na música brasileira, em especial na bossa nova. Isto resume o que eu sentia. Era algo que destoava de mim, assustava e amedrontava, mas que era tão forte, intenso, bonito e gostoso que eu não podia mais fugir. A letra da música resume isto. Coloquei-me no direito de tentar. Enfrentei o medo. Arrisquei. Qual o resultado?

“Muito do que sempre um dia
Encontrar em alguém queria
Tinha, tinha, tinha, tinha, tinha
Muito a ver
Com o que encontrei, surpreso
Quando encontrei-me preso a você”

Toda minha existência, por mais inútil que tenha sido, que seja ou que venha a ser, tem valor por ter sido meio de expressão para estes versos. Nunca antes e nunca depois escrevi algo tão preciso, poético, intenso, verdadeiro e justo como neste momento. A música, que não passa da repetição de uma seqüência, salienta a dissonância fazendo soar duas notas com apenas um semitom de intervalo (Mi e Mib). Apesar do conhecimento que já possuía, isto foi instintivo.

Nestes dias, toda vez que compunha algo ficava ansioso pra mostrar ao Ducos, Kao e Nésio (veja Aquelas Histórias e Vou Pra Santa): no mesmo dia toquei para eles. O Ducos ria de mim aos berros: “Estás apaixonado! rá rá!” enquanto me parabenizava. O Kao me pedia para tocá-la, e ficava em êxtase no refrão, e me lembrava da força dele.

No outro final de semana cheguei em Santa Maria e fui para casa de minha mãe. No sábado havia combinado de sair com o Márcio e a turma, mas passei antes na casa de Mariana. Lhe convidei para namorar comigo. Lhe disse em seguida que estava de saída. Mas ela disse: “Você não vai não…”. Este final de semana foi um dos mais frios que já passei em Santa Maria, mas minha lembrança principal não é bem essa…

No outro dia à noite fomos ao cinema ver “Rei Leão” e comemos uma lazanha. Eu achei o clima meio estranho. Quando chegamos em sua casa Mariana disse: “Olha, acho que é melhor não”. Estava com medo.

Não lhe disse nada. Peguei o violãozinho de seu pai, desliguei o condicionador de ar, afinei o violão e toquei esta música. Dei-lhe um beijo no rosto (acho!) e deitei em meu colchonete no chão e dormi. No outro dia levantei para ir para Cacequi.

A semana foi dura. Havia recebido um convite de um colega do BB - primo do pai do Márcio - para participar de uma força tarefa em Brasília, ele podia indicar algumas pessoas e me convidou. Era uma grande oportunidade de passar um mês em Brasília, conhecer pessoas de todo país, fazer contatos e mostrar meu trabalho - algo que alavancaria grandemente minha carreira no banco.

Mas eu precisava do aval do gerente geral de minha agência. Ele me cozinhou, e na sexta-feira disse que não podia porque o quadro de funcionários estava apertado… os colegas todos tinham me incentivado, cobririam minha ausência… Não lembro de outra vez ter ficado com tanta raiva em minha vida! Que grandissíssimo FDP! Fiquei tão p. da vida que peguei minha mochila e fui para estrada pedir carona para Santa Maria no velho estilo, dedão para cima. O único lugar, a única pessoa que queria ver era Mariana.

Cheguei lá e chorei, chorei de raiva. Estava sentado em sua cama, ela saiu e trouxe um chá numa bandeja. Quando fui pegar a xícara a asa descolou derramando todo chá, mas sem maiores danos. Aquele “acidente” me relaxou, e então olhei bem fundo nos olhos de Mariana e lhe dei um forte beijo, que ela correspondeu na mesma intensidade.

As dúvidas se dissiparam. Dois dias depois, Mariana “pediu-me em namoro” à minha mãe. Algumas semanas depois, quando seu pai esteve na cidade, foi minha vez. Ao pedir “a mão de sua filha em namoro”, o velho Castilhos não podia deixar barato: “a mão eu dou, agora o resto é com ela”.

Dez Anos Se Passaram…

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