Rotina, a vilã incompreendida
Sou uma pessoa tida como caseira. De fato me considero uma pessoa caseira. Caseira no sentido de gostar de estar em casa, atividades que se pode fazer em casa, gosto de meu canto, ou então de estar na casa de amigos, seja numa conversa despretenciosa, seja assistindo a um filme, seja degustando qualquer iguaria culinária. Gosto e curto coisas ditas comuns. Coisas… rotineiras.
Ontem ouvi um programa de rádio discutindo sobre “Como acabar com a monotonia num relacionamento”. E, algo bastante comum, “acabar com a monotonia” confundiu-se com “acabar com a rotina”, ou “como evitar que um relacionamento caia na rotina”. Conforme a discussão ia evoluindo, cada vez mais me incomodava esta confusão que se abate sobre a maioria das pessoas: rotina não tem nada a ver com monotonia.
Antigamente as pessoas eram educadas e criadas para ter um emprego a vida toda, um casamento a vida toda, viver na mesma casa a vida toda. Todos cresciam com esta idéia na cabeça, então a idéia de rotina era aceita com muito mais facilidade. Os “tempos modernos”, que aumentaram a velocidade de tudo e de todos, nos trouxeram a busca pela novidade, nos completamos pelo diferente, pela moda mais recente, pelo celular com mais recursos, etc. Então a rotina começou a cair na desgraça, ou melhor, a ser confundida com a monotonia.
Ficar em casa todo final de semana? Rotina/monotonia. Bater ponto no trabalho? Rotina/monotonia. Levar o cachorro pra passear e fazer cocô? Rotina/monotonia. Chegar meia-dia em casa e encontrar o almoço pronto? Rotina/monotonia. Chegar em casa de noite e jantar com a família? Rotina/monotonia.
Ok, já é o suficiente para mim. Esta tal rotina está sendo muito massacrada. Vamos observá-la de modo diferente.
Voltemos aos tempos de criança. Todo dia vamos a escola, gostando ou não, mas ao meio-dia, varados de fome, vamos nos aproximando da porta de casa e aquele aroma maravilhosa da comida de nossa mãe quase nos leva nas nuvens. TODOS OS DIAS. Ah, só de pensar me dá saudade.
Bom, chegou dezembro, férias, amém!! Nada de professores passando provas, dever de casa, trabalhos para apresentar… mas depois de um mês de férias bate uma saudade dos amigos, de se encontrar no recreio e atualizar as fofocas TODOS OS DIAS com os colegas.
Paqueramos, paqueramos e um dia começamos a namorar! Ah, quantas coisas novas, as descobertas, os beijos apaixonados… que bom ter uma pessoa para andar sempre de mãos dadas, de se encontrar no portão de casa e ficar namorando até o pai gritar “já está na hora!”, TODOS OS DIAS se for possível…
Ah, que mundo maravilhoso o da leitura… descobrir novos mundos, confrontrarmos com idéias diferentes das nossas, conhecermos a vida de pessoas interessantes, ou simplesmente nos acalentarmos espiritualmente nas palavras sábias dos livros de nossa religião, nem que seja apenas meia-horinha TODOS OS DIAS.
Eis que namoramos, noivamos e casamos. O sonho de tantos, em especial de tantas mulheres (cada vez menos)… Ter seu/sua amado(a) TODOS OS DIAS ao seu lado, poder dizer o quanto ele/ela te faz bem, cuidar de suas coisas, ou de seu café da manhã, ou ajudá-lo nos trabalhos de faculdade, ou a arrumar suas malas TODA VEZ em que viaja, ou acordá-lo(a) com um beijo TODAS AS MANHÃS.
Filhos… que trabalheira! TODO DIA um briga para tirá-los da cama e mandá-los para escola, aquela enrrolação no almoço, cobrá-los de fazer o dever de casa… TODO FINAL DE SEMANA levá-los no clube, praia, rio… e quando são adolescentes aquela encheção de saco pedindo dinheiro pra sair com os amigos TODO SÁBADO À NOITE. Pensamos que quando eles sairem de casa será nosso alívio, nosso descanso…. que nada, o que fica é saudade de tê-los conosco TODOS OS DIAS…
(…)
Todos os parágrafos acima são descrições de rotinas que de um modo ou de outro todos passamos na vida. E inúmeras outras existem - basta que nos demos conta. Nenhuma delas é ruim, pelo contrário, mas por algum motivo o índole humana parece que chega num determinado ponto em que só enchergamos a repetição, pura e simples. Nos esquecemos do significado das coisas individualmente, só vemos sua repetição – e então achamos tudo muito monótono.
A resposta para isto é uma característica deplorável do ser humano: ACOMODAÇÃO. O que é maravilhoso da primeira vez é legal na segunda, bonitinho na terceira e se torna banal daí em diante. Isto não é problema da rotina – é um problema NOSSO.
Levante todos os dias às 5:30h da manhã e vá fazer um exercício físico: caminhar, correr, andar de bicicleta, malhar, nadar, o que for. Faça isto durante 6 meses. Nunca mais você vai querer deixar, porque você SENTE O QUANTO ISTO TE FAZ BEM. É uma rotina? Completamente. Mas depois de alguns meses você nem vai perceber mais isto, tamanha a disposição que isto lhe dá.
O mesmo deveria acontecer com todas as boas rotinas da vida. Desaprendemos conforme crescemos a viver no dia em que estamos, no momento presente, como as crianças – ou indo mais além, como os cachorros. Eles nos esperam TODOS OS DIAS com o rabo abanando quando chegamos do trabalho. Engraçado, damos mais valor à rotina do cachorro do que se fosse nosso(a) esposo(a) fazendo a mesma coisa.
As crianças não tem noção de presente e futuro, vão construindo aos poucos. Por isso, vivem intensamente tudo que presenciam: mesmo que seja a mesma coisa de ontem. Mesmo que seja a 45ª vez que a jogamos para alto. O sorriso, a satisfação é a mesma. É, ela sabe viver, pena que desaprende com o tempo.
Agora, só uma forma de descobrir o quanto a rotina nos faz falta: é PERDÊ-LA. Não abandoná-la, mas perdê-la. Não poder mais manter aquelas atividades “sempre a mesma coisa” é que nos faz descobrir o valor delas.
Saia de casa… e vais sentir falta até das broncas do pai e da mãe (a comida da mãe na mesa já falei…)
Termine o ensino médio e entre na faculdade, e vais sentir falta da leveza que era o tempo de escola (e nós achávamos tão duro! mas a faculdade é pior!).
Termine a faculdade, e vais sentir falta de juntar os colegas para fazer trabalhos, de falar mal dos professores, das festas no final de semana… todo final de semana, sagrado…
Troque de emprego, e talvez sinta falta da gentileza humilde do porteiro da empresa antiga que todo dia perguntava com aquele sotaque estranho “bom dia, seu fulano, como vai a família?” - pois no emprego atual o porteiro é todo fechado e nem olha pra você.
Se morrer seu cachorro, vais sentir falta das caminhadas para ele fazer o “serviço sujo”.
Separe de seu/sua esposo(a) e vais sentir falta de acordar de madrugada e ter um corpo quente do lado, mesmo que ele nem perceba que você acordou. Vais sentir falta do beijo rápido que trocavam pela manhã e que achavas pouco. Vais sentir falta… não daquele presente de aniversário, mas do DIA-A-DIA…
A monotonia vem do vazio interior de cada um e não da rotina. Todos buscamos, de uma forma ou de outra, um porto seguro, e este porto seguro está depositado em coisas que sabemos que não mudarão (o amor de nossos pais, companheiros, dos amigos, um emprego estável…). E as coisas que não mudarão estarão SEMPRE LÁ… pois tornaram-se uma rotina da vida.
Encerrando com uma metáfora bonitinha… uma pequena flor todo dia enche um jardim no final de um ano, mas só notamos os buquês que recebemos no dia de alguma coisa dita especial.






