A história do “Feio”
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Nunca gostei de ver animais presos. Acho que é uma extrapolação de minha índole livre de sagitariana alma: quero que todos sejam livres como desejo ser. Mas adoro animais, gosto da honestidade de seus sentimentos e instintos. Nunca se pode esperar que um cachorro seja diferente de um cachorro, um gato diferente de um gato, por isso eles são quase matemáticos: trate-os bem e eles nos dão retorno. Se eles revidam, algo os fizemos…
… quem dera fosse assim com nossa “raça animal humana”…
Mas a história não é sobre um animal qualquer, mas a história do “Feio”. Gatos e cachorros ficam conosco por vontade em contrapartida aos nossos cuidados (interesseiros… mas nos dão retorno!). Mas pássaros têm índole da liberdade, sua vida não cabe numa gaiola. Nossa vida não caberia. Não consigo enxergá-los presos, é como se visse a mim mesmo dentro daquelas grades. Um canto triste… Nunca me vi criando pássaros em cativeiro, mas adoro vê-los, é um privilégio ainda morar num lugar em que – por duas árvores existentes na frente de meu apartamento – ainda posso acordar com o cantar destas criaturas adoráveis.
Nossa… ainda continuo divagando e não falo do “Feio”… pois bem, alguns anos atrás uma amiga nos trouxe da roça dois pequenos (mesmo!) periquitos que haviam caído do ninho. Meu ex-sogro queria um e nós “herdamos” o outro, apesar de que eu fiquei meio num dilema… de qualquer forma, os bichinhos iriam morrer sem cuidados. O que de fato aconteceu, um deles não resistiu, e ficamos cuidando do outro, à base de polentina umedecida que de início dávamos de seringa, como se fóssemos sua mãe. Ele veio numa gaiolinha artesanal, que deixamos como seu ninho, mas de porta sempre aberta, só no início, à noite, deixávamos fechada com medo que saísse e se machucasse.
O problema era achar um nome para aquela criaturinha. Nada charmosa, diga-se de passagem: pelado, esquisito, desengonçado… quando começaram-lhe a nascer as penas, então, ficou um bicho muito feio… e começamos a chamá-lo de feio, feio… até que este virou seu nome: “Feio”. Em pouco tempo este nome mostrou-se inadequado, mesmo que para nós estivesse recheado do mais puro carinho. Conforme as penas verdes tomavam-lhe conta aquele pequeno bichinho mostrava-se cada vez mais belo.
Já não precisávamos mais alimentá-lo com a seringa, numa pequena tampinha colocávamos sua refeição… e ele comia tranqüilamente. Como no seu canto na pequena bancada da cozinha ele mostrava-se desconfortado enquanto almoçávamos, eu o colocava na mesa, com seu pratinho, como “parte da família”. Sim, às vezes um pouco arteiro bicava a comida do meu prato, mas depois de alguns “puxões de orelha” voltava para seu pratinho.
Conforme foi criando habilidade com as asas também passou a escalar as coisas e em principal nós mesmos. Ficava em meu ombro mas – não contente – subia em minha cabeça, o que achava o máximo, mesmo quando eu estava almoçando. Uma coisa deliciosa que ele fazia era quando eu deitava na rede, um pouco todo dia, e ele subia até meu peito e ficava brincando em meu cavanhaque. Se perdia, como se fosse encontrar algo para comer ali. E eu curtia aquele singular “cafuné”.
Não demorou muito para que estivesse forte para pequenos vôos, o que aumentou sua ousadia: quando eu chegava em casa, não importava onde estivesse, atravessava a casa para pousar em meu ombro. Um carinho extraordinário. Fora uma vez em que, cansados de suas estripulias na mesa, o colocamos para almoçar no seu canto. Não adiantou: ele voou para a mesa e caiu na travessa de feijão! Uma bagunça!
Mas… alguns amigos nos falaram: se não cortar a ponta das asas, ele vai embora… Não teríamos coragem. Se fosse para ficar conosco, que fosse em liberdade. Se seu instinto falasse mais forte e ele fosse embora, que assim fosse, pois este era seu desejo.
E assim foi. Na frente de nossa casa haviam algumas árvores, e alguns periquitos apareciam por lá. Um dia o “Feio” saiu andando pela lateral da casa e não voltou mais. Foi um misto de tristeza e alegria… tristeza pela sua ausência… felicidade pela sua existência, por ter compartilhado o momento mais bonito de sua vida conosco, e por nos permitir ser uma mão que o ajudou a seguir seu destino glorioso – ser livre.
Até hoje, passados 5 ou 6 anos, não lembro bem, ainda lembro do “Feio”. Acho que em menos de dois meses conosco (não foi mais do que isso) ele nos ensinou todo ciclo da paternidade/maternidade: Da indefesa forma de vida que em tudo depende de nós a um ser maravilhoso que alça vôo e nos “deixa pra trás”, repletos de saudades e boas lembranças.
Obrigado por toda beleza de suas lições, meu querido “Feio”.






