O Velho e a Chalana
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Meu pai era violeiro. Cresci sempre vendo alguém chegar lá em casa - ou pedindo para ele tocar, ou o “arrastando” para um churrasco, uma festa, o que fosse… e lá ia ele com seu violão.
Era violeiro sem um tostão no bolso, quando arrebentava uma corda ele literalmente dava um nó… isto não cheguei a ver, só ouvir falar. Não tinha tempo ruim, sempre ponto a tocar. E assim os amigos o viam: o velho Gegê, violeiro, cantador…
Meu pai mesmo fez sua certidão de nascimento quando foi alistar-se no exército. Apesar de meu avô ser Juvenal Goulart Dias, meu pai registrou-se com o sobrenome Goulart; assim ficou Getúlio Fagundes Goulart, e não Dias… assim ganhamos um sobrenome bem mais charmoso (apesar da eterna pergunta se somos parentes do Jango… eu costumava brincar que não tinha a orelha cortada - um filho dele foi reconhecido por conta desta característica…). Já no exército andava com seu violão animando as festas.
Meu pai trabalhou num cinema. Não sei bem qual a sua função, mas isto foi no final dos anos 50, início dos anos 60… só sei que isto despertou nele o gosto pelo cinema, que passou aos filhos, sem dúvida. Meu irmão mais velho, Evandro “Magrão”, tem uma locadora (a Starway Vídeo - qualquer alusão ao Led Zeppelin NÃO É mera coincidência), meu irmão do meio Gilmar “Mano” é cinéfilo adorador de filmes antigos (paixão que compartilhamos anos juntos assistindo o “Corujão” da Globo que passava muitos filmes antigos maravilhosos)… e eu claro, que trabalhei na locadora de meu irmão e era conhecido como “sinopse”, pois sabia a sinopse de todos os filmes da locadora…
Meu pai entrou na UFSM em 1966, seis anos após sua fundação… conhecia e era conhecido pela universidade inteira. Foi zelador de um prédio que hospedava (à princípio) professores que vinham fazer pós-graduação, então conhecemos pessoas de todo país, até do exterior… em nossa casa estava instalado o único telefone do prédio, ramal 2255, e todos iam lá fazer ligações (horríveis!) para seus familiares, inclusive os estrangeiros… lembro de um africano (o negro mais NEGRO que conheci, sem nenhum preconceito), que falava uma língua muito estranha… a gente se divertia. Ganhávamos muitas lembranças, desde artesanato (nunca esqueço o jegue de barro e o “cangaceigo” - era pra ser cangaceiro, mas a gente falava imitando o Clóvis Borgnai) até bola de basquete (que tinha quase minha idade… kkkk… e ainda joguei com ela). Tudo isto era fruto da atenção que meu pai (e minha mãe, não posso deixar de citar) dedicava, e sempre fomos bem tratados em retribuição a isto.
Meu pai não teve muita oportunidade de estudar. Lembro dele freqüentando o supletivo para terminar o 1º grau… chegou a iniciar o 2º grau, mas não seguiu adiante. Era bonito ver meu pai e minha mãe, já com um filho casado, buscando crescer, estudar… depois de anos como zelador, meu pai assumiu um cargo na Biblioteca Central da UFSM. Eu adorava visitá-lo lá. Vê-lo catalogar os livros, tudo em fichas, e ele ainda era responsável por restaurar os livros… trabalho que fazia com um gosto que me encanta até hoje. Ajeitar as páginas, as “costuras”, colocar na prensa, colar, refazer a lombada… Além disso, eu emprestava livros em seu nome, li zilhares de livros infanto juvenis, lembro que eu não escolhia, lia na ordem da prateleira… Minha mãe em especial, apesar de suas limitações causadas por uma meningite quando estava na 4ª série, era e é ainda uma ávida leitora, sempre com seu livro de cabeceira… um exemplo que não teve como não nos contagiar. Em especial eu e “Mano” somos leitores vorazes e de leitura muito rápida… fruto da prática obtida com tanto que lemos… Lembro que a Biblioteca uma vez iria jogar fora uma grande quantidade de revistas Seleções (Reader’s Digest, que existe até hoje) da época da segunda guerra, e anos posteriores, da guerra fria… meu pai levou tudo para casa e eu e o “Mano” devoramos aquela fantástica coleção… era como estar no meio da propaganda da guerra, e depois no meio da guerra fria.
Este foi um dos inúmeros presentes que ganhamos de meu pai - mesmo que não tivesse custado nada mais do que sua boa vontade.
Meu pai nunca estudou música, uma vez somente lembro de ter tentado participar no Centro de Artes e Letras a UFSM de um projeto em que monitores davam aulas para a comunidade. Mesmo assim, nos impressionava com seu ouvido fora do comum: qualquer coisa que se comessasse a cantar, ia ele arrastando o dedo na sexta corda para achar o tom e rapidamente estava acompanhando. Coisa que hoje faço eu… Mas, apesar das diferenças por conta das grandes semelhanças (os pais sempre têm mais atritos com os filhos mais parecidos), seu maior orgulho foi, sem dúvida, o Mano. Com sua extraordinária disciplina, sua cabeça sempre voltada a seu sonho, dificílimo, de tornar-se músico num instrumento tão obscuro neste país como a marimba… e que lhe fez conseguir, com muito esforço e talento o que meu pai jamais imaginaria: ter um filho estudando na Inglaterra! Íamos a todos os concertos de meu irmão, do Grupo de Percussão da UFSM, e era o momento sublime de meu pai: ainda lembro como se fosse hoje de meu irmão em sua primeira apresentação da adaptação do “Moto Perpétuo” de Paganini para xilofone (alguém tem a idéia do que é decorar mais de 4 mil notas tocadas sem interrupção??? Paganini era louco, diziam que tinha parte com o diabo, reinventou o violino)… Isto era a realização de meu pai. Todos de pé aplaudindo o “Mano”. Pena que ele não pode ver meu irmão com o título de Doutor em Percussão, que é, antes de mais nada, um prêmio de meu pai.
Engraçado é que o velho Gegê deu a mim seu maior dom: seu ouvido. Mas a garra maior, a força pelo trabalho, por mais que todos nós irmãos a tenhamos herdado, deu ao “Mano”. Não é à toa que todos os trabalhos de meu irmão, mesmo que sem esquecer de agradecer a Deus, aos amigos e à nossa maravilhosa e extraordinária mãe, são dedicados especialmente a ele.
Ele, que nos deu a oportunidade termos uma vida melhor que a dele.
Ele, que nos fez batalhadores.
Ele, que nos ensinou a sermos simples e sermos felizes com as coisas que valem a pena… mesmo sem saber direito disso.
Ele que nos depositou valores sólidos, que nunca se deixou corromper mesmo entre a tantos funcionários públicos que exploravam a UFSM (poucos que sujam esta batalhadora classe, deixo claro).
Ele, que amou-nos tanto mesmo sem saber o caminho para isto, sem saber demonstrar, sem saber às vezes dar um abraço.
Ele, que servia seu prato sempre depois de nós, que sempre deixou o melhor para nós, seus filhos, e nem percebíamos.
Ele, que sendo falho, que sendo imperfeito, que tendo errado, deu-nos vontade de sermos melhores, seja conosco mesmo, seja com os amigos, seja com nossos descendentes. Mas que cresceu tanto, tanto, se conhecemos do que veio, de seu berço pobre, que o que nos deu me parece demasiado difícil de pôr em valores.
Ele, que de alguma forma nos deu a sabedoria de compreendermos seu valor ainda em vida - e não termos remorso de uma palavra esquecida, ainda que sempre pareça que elas foram insuficientes.
Ele, que foi um presente que Deus nos deu: meu pai.
O velho Gegê privou-nos de sua presença terrena há já longos 15 anos. Foi de repente: um infarto fulminante, no meio da noite… tive a sublime oportunidade (e sabedoria que de onde desconheço) de lhe dar um abraço poucas horas antes de falecer. Mesmo sem saber o que ocorreria…
Hoje não é aniversário de nada dele, ele faleceu num setembro, e era sagitariano de 18 de dezembro (aliás o dia em que minha mãe sempre armava a árvore de natal, 7 dias antes). Sagitariano é um bicho livre, que precisa da liberdade, e ele privou-se muito da sua para prover-nos o mundo. Não é fácil, eu sei muito bem. Mas sim, hoje não é nenhuma data que o lembre, apenas o dia em que eu, entrando no banho, tive a inspiração para prestar-lhe uma humilde homenagem que há muito desejava: uma música.
Espero - e meus irmãos, familiares e amigos que o conheciam poderão avaliar - ter deixado em tão pouco espaço a síntese da essência de meu pai: homem íntegro, nada perfeito, mas uma figura que deixou-me e a meus irmãos uma marca impressionantemente positiva. Deu-nos o que não teve e o que era de melhor (além de defeitos, como a teimosia… rs). Era somente um homem. Não era Deus. Mas é meu pai. E como é bom tê-lo como pai.
“Roubei” ou parafraseei um trecho de uma música que adorava: O Negro da Gaita. A letra diz:
“Quando o pai, que foi gaiteiro
Desta vida se ausentou
O Negro, piá, solitário
Tal como pedra rolou
E se fez homem proseando
Com a gaita que o pai deixou”
… música cantada pelo extraordionário César Passarinho, possuidor de uma das vozes que mais me marcaram na vida, intérprete sublime e com muita justiça muitas vezes premiado.
“Quando o Negro abre essa gaita
Abre o livro da sua vida
Marcada de poeira e pampa
Em cada nota sentida”
E, não poderia deixar de ser, um trecho da música com a qual meu pai deleitou-nos várias e várias vezes, e com a qual o homenageamos em sua partida: Chalana.
CHALANA
Composição: Mario Zan e Arlindo Pinto
Lá vai uma chalana
Bem longe se vai
Navegando no remanso
Do rio Paraguai
Ah! Chalana sem querer
Tu aumentas minha dor
Nessas águas tão serenas
Vai levando meu amor
Ah! Chalana sem querer
Tu aumentas minha dor
Nessas águas tão serenas
Vai levando meu amor
E assim ela se foi
Nem de mim se despediu
A chalana vai sumindo
Na curva lá do rio
E se ela vai magoada
Eu bem sei que tem razão
Fui ingrato
Eu feri o seu pobre coração
Ah! Chalana sem querer
Tu aumentas minha dor
Nessas águas tão serenas
Vai levando meu amor
Ah! Chalana sem querer
Tu aumentas minha dor
Nessas águas tão serenas
Vai levando meu amor
É bom ter meus filhos e ver em mim as coisas mais positivas de meu pai. Num mundo em que se reclama tanto de pais que abandonam os filhos… eu sei que há muito a trilhar, mas dentro de mim tenho a força do meu velho, que se necessário fazia bicos, não tinha trabalho pouco digno se fosse para dar sustento a seus filhos. E o desejo de ser um pouco melhor como pai do que ele, de errar menos do que ele… pois querer o melhor para os filhos é sua maior herança. Nos ensinou respeitar todas as pessoas e hoje isto é uma benção… se somos bem tratados pela moça da padaria, pelo motoboy ou pelo porteiro, isto é algo que ele nos depositou. Assim como saber andar entre doutores. A impressionante avidez que temos pelo conhecimento, pelo estudo… a curiosidade que vejo em meu filho Bernardo em aprender tudo e tudo… veio de meu velho. E quando o Bernardo gruda em mim quando faço algum trabalho manual, qualquer que seja, vejo a mim em volta do velho Gegê, quer ele estivesse pregando um prego, fazendo um furo na parede ou passando gasolina de um carro para um galão. Quantas coisas aprendi com meu velho pai! E quantas ainda vou ensinar para meus filhos.
Eu quis deixar nesta música algumas referências que não se pode tirar dele: o estilo da música (apesar de não ser muito natural para eu compor, mesmo gostando muito do que ele tocava), a lembrança dos solos que ele fazia do violão, do assovio que acompanhava obrigatoriamente qualquer trabalho que estivesse realizando (sempre uma música irreconhecível), e a lembrança bonita de seu enterro… em que tive a sublime iluminação de fazer todos cantarem enquanto seu corpo era sepultado. Quando vi a todos chorando, eu disse algo assim: “Não posso deixar que isto aconteça! Ele cantou a vida inteira para nós, vamos cantar para ele partir!”. E comecei a cantar, engasgado, “Chalana”. Que ele tantas e tantas vezes cantou para nós. E foi extraordinário.
Depois do enterro, nunca mais chorei pela morte de meu pai. Não achava certo: não queria deixar a saudade tomar conta de meus dias, se ele tinha deixado tanta coisa boa em mim.
Mas hoje chorei. Não de tristeza, não de saudade.
Chorei de sentir o quanto ele está vivo em mim, em seus filhos, naqueles que amava.
A Chalana o levou sem tirá-lo de nós…






