A Semente

Quinta-feira, 28 de Agosto de 2008 -- em Poesias e Textos

Rafael Goulart - 28ago2008 - 1043h

A paixão é um flor.
Gostamos de colher flores, são belas.
Nos encantam.
Nos fascinam.
Nos agrada andar com elas.
Mostrar a todos.
Sentir seu aroma, suas cores.

Nos frustramos quando a flor murcha.
Por mais que a reguemos no jardim.
Por mais que troquemos a água do vaso.
Ela nos entristece com sua morte.

Às vezes nos descuidamos.
A flor morre mais cedo.
Um vento forte.
Um animal.
Ou esquecemos de regá-la.
E parece, então, sem sentido.
Sem sentido cultivar outra flor.
Permitir-nos inebriarmos com sua beleza e aroma.
Se, adiante, ela nos frustrará.
Inevitalmente.

Acontece que a flor é um meio.
Um condutor.
Um mensageiro.
Pois o que ela nos traz de melhor não é o que vemos na superfície.
Não é a beleza ou o aroma inebriantes.
Não.
Isto é o mesmo que atrai as abelhas.
Não.
Mesmo as abelhas vão mais fundo na flor.
Pegam seu néctar.
E ainda sim, não vão fundo o suficiente.
Pois está mais dentro.
Está dentro.

A flor é apenas um meio.
Mas ainda antes há o fruto.
Que vem da flor.
O fruto é deleite.
Que nos alimenta, nos delicia muitas vezes.
Que também tem aroma enebriante.
Mas ainda assim, há de se ir mais dentro.
Pois o fruto também é um meio.
Ele serve para guardar e proteger.
Guardar e proteger a semente.

Esta sim, vem da morte da flor e do fruto.
Mas traz consigo a renovação.
A vida nova.
Novas vidas!
A força, a vitalidade.
E até ironicamente nos devolve as flores.
E os frutos.
Assim, incessantemente.
Num ciclo que só cessa se o impedirmos.
Este é o ciclo da vida.
Esta é a vida verdadeiramente.

Não podemos, então, achar que a vida são flores.
Nem frutos.
A vida está semente.
De onde tudo nasce, de onde tudo que vive se origina.
E pra onde tudo retorna, para nascer de novo.

Se a flor é a paixão,
Se o fruto é o deleite,
A semente é o amor.

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