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Trouxa Apaixonado

Segunda-feira, 1 de Outubro de 2007 -- em Mais do que tudo
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Rafael Goulart (Janeiro, 1990)

Esta é a primeira música da fase que chamo de “Mais do que tudo”. Ela é de janeiro de 1990, logo depois do Vestibular que prestei na UFSM para Contábeis (Meu Deus, onde estava com a cabeça para cursar Ciências Contábeis…). E foi do vestibular que surgiu a dona da canção

Estava eu na Rua do Acampamento (eita Santa Maria…), esperando o “buzu” para voltar pra casa, sábado, um dia antes do vestibular. Chega uma garota e me pergunta : “É aqui que se pega o ônibus para a Universidade?” “Sim, é o que vou pegar”, respondi encantado. Ela estava com sua mãe, iria fazer o vestibular também e queria adiantar-se na procura do local de prova. Um cabelo castanho com corte channel, pele clara, belas curvas, um sorriso contagiante… É, fui fisgado. Luciana de Holanda Emer, seu nome. Eu iria descer no caminho, mas fui com ela até a Universidade, andamos por lá (o campus é enorme) até encontrar sua sala, marcamos para nos falarmos nos outros dias, acabei lhe vendo no último dia apenas. Fiquei com seu telefone para lhe dar o resultado do listão, mas infelizmente ela não passou, e nunca mais a vi.

Daí nasceu “Trouxa Apaixonado”. Minha insuportável chatice, meu irritante perfeccionismo não descansou enquanto não pus algo marcante na música, mas invisível aos ouvidos: a música é um acróstico. Acróstico é quando as primeiras letras de cada verso formam uma palavra ou frase. Vista assim, pode-se ler:

“LUCIANA PARANA LUCIANA EMER LUCIANA EMER LU LU…”

Paraná é estado onde ela morava, Emer seu sobrenome, e Lu o apelido pelo qual sua mãe lhe chamava.

Nossa, como sou um porre! Este perfeccionismo me perseguiu durante muito tempo, hoje estou mais calmo. Musicalmente, a canção utiliza uma solução harmônica simples (I – I7 – IV – Ivm). Inicialmente foi composta para ser tocada com ritmo mais agitado, com contrabaixo mais marcante (na época eu tocava baixo também). Lembro de eu e o Márcio ensaiando na casa do Becho (Luís Bonecarrère). A intenção era formar uma banda contando ainda com o Leonardo “Massachussets” (o apelido foi Márcio quem deu para sacanear seu probleminha de dicção… “xxxxx”) na bateria. Que futuro: o Becho nunca aprendeu a tocar nada (ou talvez nem isso… hehehe…), o “Massa” era um baterista que só tinha baquetas (literalmente) e eu e o Márcio então… Bom, voltando à música, depois que fiquei mais ensimesmado na composição, criei um arranjo só para violões, usando o solinho que tinha criado anteriormente.

Apesar de tudo o que me xinguei, sou fã desta música. Ela me colocou num estágio diferente, com um acabamento melhor. Mas o mais importante: mostrou-me que o melhor que faço vem de meus sentimentos, e o que mexe mais comigo não poderia ser outro: a paixão. Mais tarde, iria descobri outros, como a saudade, o ciúme, estes ligados à paixão. Pode parecer absurdo, mas apesar de utilizar a palavra “amor” em algumas canções, poucas delas são de amor, mas sim de paixão. Mal usamos a palavra “amor”, jogamos ao vento e depois a traímos.

Mas isto é assunto para bem mais adiante.

Só Porque Estou Longe de Você

Segunda-feira, 1 de Outubro de 2007 -- em Mais do que tudo
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Rafael Goulart (26, Fevereiro, 1991)

Nas férias de 1991 fui à Brasília visitar minha tia e meu primo Alexandre. Eu tinha economizado um pouco de dinheiro depois de deixar o Banco do Brasil (como menor estagiário), e com apoio do meu irmão Evandro fui visitá-lo na Paraíba, onde morava então. Saímos eu e o Xande (ambos com 18 anos) e de “buzu” encaramos 40 horas até Patos na Paraíba. Ficamos na casa do Lacordere, amido do Evandro, e ele chegou no outro dia com minha cunhada, sobrinhos e duas amigas: Cidoca e… Maria José. Paixão à primeira vista…

De lá fomos para João Pessoa, todos meio acampados na casa de outros amigos de Evandro. Saímos à noite e eu tentei, na minha incompetência, dar um “chego” na Maria José, mas errei na mão, levei uma cortada, e fiquei meio cabreiro. No outro dia, na praia, ela fingiu um afogamento, eu a “salvei” e a carreguei no colo até a praia. Minha cunhada depois me contou da armação na qual caí (bem que gostei…)

Aí, de noite, cuidando da “coitadinha”, pintou um beijo… e então passei uns dos melhores dias de minha vida, completamente apaixonado…

Mas eu tinha que voltar, eu e meu primo retornamos à Brasília e mais alguns dias depois retornei à Santa Maria. Aí eu descobri o que é a saudade que uma paixão trás. Como a paixão é fogo, tudo que vem dela queima.

Estava eu na casa do Márcio, 26 de fevereiro, 19 dias após deixar a Paraíba. Estava em meu colchão no chão já de praxe, peguei o carderno e, sem voltar atrás, nem quase corrigir, num tapa, escrevi quase toda letra (apenas um pequeno trecho faltou, como conto a seguir). Aí peguei o violão e a primeira coisa que pensei foi: como é que vou musicar isto? Toquei um dó maior e comecei a cantar: a melodia exata, perfeita, toquei um lá menor, ela continou…

Até hoje me espanto quando isto acontece, mas acho que esta foi a mais impressionante. É como se a música estivesse pronta, e alguém fosse me “ditando” e eu só transcrevendo. Isso me assusta, até. Lembro que achei-a muito montótona (“como posso, como posso…”). Fiz outro trecho para dar uma quebrada, mas quando cantei mudei um verso só e então conclui-se a música e seu título estava lá: “Só porque estou longe de você”.

Há várias músicas minhas que eu adoro, geralmente estou “de amores” pela última que compus, mas esta é aquela que se já não fosse de minha autoria, gostaria de ter feito.

É interessante se dizer que dois trechos, ou como costumo dizer, duas soluções da música são baseados em referências que eu tinha. Uma é a música “Hold me Tight” dos Beatles, que faz uma quebrada na música partindo da dominante (I) para a terça bemol (IIIb), ou seja, DóM → EbM. A outra música é “Copacabana” do Barry Manilow, que faz uma seqüência I7M - Ib7M - VII7M (no caso, C7M – Bb7M – B7M). Eu gosto de colocar isto porque o mundo é redondo, e não dá para dizer que somos 100% originais. Apesar disto, tudo o que circulava ao meu redor gerou algo único e original.

O sentimento que Maria José me causou e que gestou esta canção é algo pelo qual lhe sou grato pelo resto de minha vida. Mesmo com todas as encrencas que ela me casou anos mais tarde…

Sobre a gravação:
Esta gravação em MP3 eu gosto muito, ficou muito forte a interpretação, acredito que não errei nada (mas melhor sempre dá, não é?). Gravada de um take só, direto em MD, no dia 02 de janeiro de 2005, na casa da Esmeralda com equipamento do Jeremias, aqui de Barreiras.

Canção de Despedida

Segunda-feira, 1 de Outubro de 2007 -- em Mais do que tudo
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Rafael Goulart (Agosto, 1991)

Após nosso namoro relâmpago de verão, eu e Maria José fiacmos nos correspondendo durante os meses seguintes. Aquele namoro por carta, tão mais comum em outras épocas. Havia uma possibilidade remota dela ir morar no paraná, para onde a família de meu irmão Evandro havia mudado, mas era algo remoto. Foi quando em agosto de 1990 eu percebi que aquela prisão era doída e inútil, e que devíamos seguir cada um seu rumo. Quem sabe o destino nos reuniria novamente e traria uma nova história (até nos reuniu, mas a história…). Decidi, então, terminar o “namoro”. Enviei uma carta, hoje não lembro mais direito se já enviei a fita com esta música.

É claro que ela não gostou, mas… é a vida. “Canção de Despedida”, que possui um nome igual ao da cantada pela Elba Ramalho – confesso que não consegui mudar seu nome – é uma música feita para acabar o relacionamento que tem que acabar, mas em que ainda se quer bem ao outro. Foi o que quis passar. É uma música onde utilizo rimas que considero de bom gosto (mas o que é bom gosto, afinal?), uma melodia agradável, é curta, tranqüila. Harmonicamente simples, mas utilizando um recurso muito comum na bossa nova, a V com a 5M. Mas foi utilizado este recurso instintivamente, e não por conhecimento (na época eu não o tinha…)

É daquelas músicas que podem não ser marcantes, mas são agradáveis, e podem chegar a tocar alguém por semelhança de sentimentos. Aliás, isto me lembra outra coisa: já perceberam que todos temos nossa trilha sonora pessoa? As músicas que nos marcam, que tocaram naquela festa, naquele encontro, que ouvíamos com nossa turma… Pode parecer engraçado mas eu tenho um péssima memória para vincular a música a um ano ou período específico. Meu irmão Evandro costumava gravar fits com as músicas que ele estava ounvido em determinada épocoa (a época em que ele estava), registrando sua trilha sonora daquele momento.

Você já pensou qual seria a trilha sonora do filme de sua vida?

PS.: Um acontecimento relacionado a esta música foi o seguinte: eu digitei algumas de minhas músicas da época no incrível Carta Certa para DOS (isto, na época em que todo mundo uso do WordStar eu era mais moderno…) e por alguma motivo que não sei, isto foi cair nas mãos do Márcio. Uma vez o Maurício Bochecha estava por lá e viu o arquivo, e como ele tinha terminado com uma garota e queria fazer uma média, pegou a letra e mandou pra ela. Já serviu para alguma coisa…

Sobre a gravação:
Acho que esta gravação ficou um pouco “pro forma”, ou seja, redondinha mas com pouca emoção. Gravada de um take só, direto em MD, no dia 02 de janeiro de 2005, na casa da Esmeralda com equipamento do Jeremias, aqui de Barreiras.

Se (Pra Nos Sonhos Poder Te Encontrar)

Segunda-feira, 1 de Outubro de 2007 -- em Mais do que tudo
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Rafael Goulart (1991)
m
Esta é uma de minhas músicas “renegadas”. Eu ainda estava meio com a cabeça em Maria José, para quem fiz Só Porque Estou Longe de Você e Canção de Despedida.Aí me bateu aquele sentimento horrível de megalomania, que a gente só tem quando houve MPB demais, e acha que vai escrever uma música maravilhosa com uma letra altamente poética. Então surgiu esta música, Se. Muito: lenta, melosa, MPBosa… ah, nunca vou me perdoar por estes sentimentos horríveis… Por isso, apesar de alguém poder gostar dela, ainda acho que é vazia, pois é cheia de metáforas vazias, sentimento vazio, vazio, vazio… Algumas vezes deliramos e queremos fazer músicas rebuscadas, poéticas, etc. Caí neste conto.

A única coisa curiosa é que anos depois Gilberto Gil compôs (quer dizer, não sei em que ano exatamente…) uma música cuja a temática é muito, muito parecida, “Estrela”: “Há de surgir / Uma estrela no céu cada vez que ‘ocê’ sorrir”. Aí pensei: ´”É, Rafael, você não estava tão longe, mas também nem tão perto…”

Sempre fui muito egoísta com minhas canções, elas tinham que ME satisfazer e os outros que baixem a cabeça e aplaudam. Esta música é para mim uma das piores que fiz, pois sua motivação é a autopromoção, o exibir-se, achar-se. Não gosto disso e não gosto disso em mim. Só recentemente é que fui livrar-me disto, mas aí já é outra história. Quer dizer, todo artista quer exibir-se, é fato, mas aqueles que não querem agradar seu público, divertir, entreter ou comover, não merecem ser artistas.

Nunca Mais

Segunda-feira, 1 de Outubro de 2007 -- em Mais do que tudo
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Rafael Goulart (20, Abril, 1993 – 04:03h)

Lhes peço perdão antecipadamente, pois não poderei entrar em muitos detalhes sobre a garota que inspirou-me esta canção. Nossa história foi oculta, poucas pessoas (de minha parte) ficaram sabendo, e todas bastante distantes do círculo dela. Isto é para evitar-lhe constragimentos. Só posso lhes dizer que ela era solteira (não fui o “outro”!), nos relacionamos por 6 meses, e depois nos afastamos, não chegou a ser um “namoro”. Mantivemos muito carinho um pelo outro, acho que para sempre (de minha parte, ao menos).

Eu já estava morando em Cacequi, RS, a 130Km de Santa Maria, pelo Banco do Brasil. Passava os fins de semana em Santa Maria. Durante a semana, ficava cheio de tempo livre, e sem muito o que fazer. Comprei meu primeiro violão, um DiGiorgio (meu pai sempre sonhava em ter um… e teve, que bom) que já aqui em Barreiras, BA, dei de presente a um amigo (já tinha ganhado meu Eagle). Comprei um livro do Almir Chediak, Harmonia e Improvisação que, mesmo lendo aos trancos e barrancos, mudou minha cabeça. Esta música já demonstra mais conhecimento harmônico e a influência da bossa nova, que me acompanhou bastante nesta fase (hoje, raramente ouço).

Mesmo sendo importante para registrar o sentimento, considero esta música inferior a outras que vieram a seguir. Acho que também porque não foi feita durante o relacionamento, mas um tempo depois. Acho que já havia perdido um pouco a força. Apenas uma curiosidade: o refrão contém, levemente adaptado, um trecho de uns versos bobos que ela deixou comigo quando nos afastamos, e que durante um bom tempo carreguei na carteira.

Até o Fim do Dia

Segunda-feira, 1 de Outubro de 2007 -- em Mais do que tudo
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Rafael Goulart (05, Outubro, 1993)

Esta é a única canção que fiz inspirado no conhecimento esotérico que, mal ou bem, sustenta minha existência, ou a dá algum sentindo. Ele defende o movimento, a atividade, a busca: é isto que a música quer passar. Moto Perpétuo. mas sempre com uma meta, um prazo - até o fim do dia. A necessidade do mudar consiente. Só há um dia - hoje - e um momento - agora - para esta mudança. E isto não é evolução e sim revolução.

A música tem um ritmo que não sei definir, mas que intenciona marcar o movimento incessante. Outra coisa interessante e importante é que a letra é repetida em notas mais altas, até que o intervalo entre as duas vez em que é cantada a palavra “mudar” é de uma oitava, o que não é por acaso. Oitava, ou dar uma oitava, é uma expressão de mudança, de avanço, de superação - nos meios esotéricos.

Até o Fim do Dia foi feita para “me” acordar. Pena que não seja assim tão fácil.

Ciúme

Segunda-feira, 1 de Outubro de 2007 -- em Mais do que tudo
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Rafael Goulart (26, Outubro, 1993)

A mesma garota de Nunca Mais gerou-me um dos sentimentos mais marcantes que já tive: ciúmes. Não sou ciumento, talvez até um pouco no outro extremo, e também nunca tive problemas ou razões para isso - a não ser desta vez. Já havíamos nos afastado a algum tempo (mais de ano) quando ela começou um relacionamento que… bem, mexeu MUITO comigo.

Fiz uns versos, lembro bem pois estava na casa de Mariana, na época minha melhor amiga. Ela acompanhou parte de meu transtorno. Márcio chegou a ler e musicar, mas não gostei. Não lembro mais como foi, mas estes versos ficaram no meio da música. A harmonia é simples, mas numa análise mais aprofundada é possível perceber o uso redondo de cadências/seqüências estudadas, sem exageros. Pois a força da música é a letra. Aliás, considero uma das letras mais fortes que já escrevi.

Quis passar toda a ambigüidade, toda contradição que os ciúmes nos trazem. A confusão que dá vontade de gritar e ficar em silêncio, xingar e pedir desculpas… que sentimento tolo.

O mais interessante é que esta canção foi uma catarse. Terminei de escrevê-la e o sentimento ruim foi embora. O que ficou se resume na seguinte frase: “Se não vamos ficar juntos, e gosto tanto dela, porque não querer que ela seja feliz com outra pessoa?” A partir deste momento, comecei a compreender um pouquinho o que é o amor; até hoje não sei direito, mas uma coisa ficou clara: o amor é generoso e não possessivo.

Pouco tempo depois ela separou-se do parceiro e disse que gostava muito de mim, chegamos a trocar alguns chamegos… Percebi que vencer o ciúme foi algo válido, pois guardei o que houve de bom nesta hitória, e que deixei, espero, boas lembranças com ela. Há mais de 10 anos não a vejo, e não tenho mais notícias suas.

Quando gravei uma fita com minhas canções em 1997, fiz um arranjo com duas vozes que me marcou muito. A gravação ficou excelente, não tecnicamente pois a limitação era grande, mas o violão certinho, a primeira e a segunda voz equilibradas, não apenas aquela coisa de terça/quinta… não sou bom nisso, mas gostei do efeito. E eu gravei a segunda voz colocando a saída do microsystem na mesa e cantando assim. Ficou legal, e vou tentar repetir o feito em mp3.

Parar Na Estrada

Segunda-feira, 1 de Outubro de 2007 -- em Mais do que tudo
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Rafael Goulart (19, Janeiro, 1994)

No verão de 1994, janeiro, Mariana estava numa tremenda crise existencial, não sabia se terminava a faculdade, se voltava das férias no Rio de Janeiro… Certa noite estávamos voltando à noite de minha casa, e passamos por uma estrada nova, ainda deserta (hoje já não mais). Mariana parou o carro e ficamos olhando as estrelas, as luzes da cidade - Santa Maria - ao fundo, conversando um pouco. Fez um frio, nos abraçamos e ali ficamos um bom tempo. Éramos apenas amigos, e assim continuamos.

Olhando hoje, percebo que já gostava dela mais do que como amigo, mas não me permitia enxergar. Não posso falar por ela… fiz então esta música, que mostra minha vontade ajudá-la, guiá-la, ampará-la, dar-lhe um caminho. “Mas se o acaso, o destino quiser cruzar / Meu caminho e o seu entrelaçar / Vamos juntos, minha amiga/ Ver onde vai dar”. O destino nos uniu e nos separou. Mas muito, muito iria cantá-la nos tempos que se aproximavam.

Esta é uma canção bem característica da bossa nova, simples, sem muitos adornos, apenas os acabamentos e acordes característicos do estilo. Raramente a toco, raramente a quero escutar, mas gosto dela. Um fato interessante nela é a melodia mais grave, com um tom mais sério e melancólico, acho que que isso às vezes destoa de mim mesmo e faz deixá-la um pouco de lado. É minha única música em FáM, um tom que por algum motivo não me atrai.

Por mais que tentemos esconder, o sentimento nos trai.

Samba Pra Paola

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Rafael Goulart (24, Março, 1994 – 01:10h)

Paola é daquelas amigas doidas, namoradeiras, charmosas que adoramos. Sempre aprontando, a gente se preocupando… Mas é assim, e nos divertimos juntos em várias festas no Panacéia (bar ou “inferninho” de Santa Maria, como Mariana o considerava…). Eu não curtia sair à noite, mas iam o Márcio, suas irmãs Vanessa e Aline, as amigas Dani e Paola, o Maurício “Bochecha”, o André “Cavalo”, o Lima… Acabava indo, e ficava a noite inteira de olho no braço da guitarra e do baixo - e botando defeito, como todo chato que se acha.

Certa época eu e o Márcio nos juntamos com um guitarrista, o Lúcio e um baterista (me fugiu o nome, acho que Claiton, meio cheio de frescura, mas bom) e começamos a ensaiar. Eu tocando baixo e cantando - porque sempre me sobra cntar? Logo onde me julgo mais incompetente… - Márcio na guitarra. Eu era muito perfeccionista e acabei saindo, mas tocamos numa festa memorável em Júlio de Castilhos (cidade próxima a Santa Maria, subindo a serra). O guitarrista era de lá, o pai dele tinha um hotel. Fui para lá um dia antes, o Márcio, o Claiton e nosso inesquecível “holder” Geovandro (que sempr dava o seu “gudei”,ou “good day”) chegaram no dia. Iam tocar mais outras duas bandas além da nossa, era numa casa enorme e tocaríamos num mezanino - muito legal! Passamos o som de tarde, meio por cima. As irmãs do Márcio e a Paola estavam loucas para ir, mas não deu.

Quer dizer… Bem, tocamos Rolling Stones (Satisfaction), Ira (Núcleo Base), Titãs (não lembro da música, foi a única que o Márcio cantou com o Lúcio), The Fevers (Whisky a Go Go), Ultraje (Independente Futebol Clube) e sei lá mais o quê… o Geovandro fez uma viagem alucinada na bateria na sua participação especial… Para quem está lendo não é nada demais, mas foi uma noite muito legal. O difícil foi eu e o Márcio convencermos a trocar nossa cota de cerveja por refrigerante (na época o Márcio não bebia, hoje…).

Bom, mas o quente da história é que quando acabamos de tocar quem estava lá? A Paola e a Carla, uma amiga da época. Estavam no Expresso 362, um bar de Santa Maria, e ficaram naquela de pedir um “pila” emprestado a cada amigo (claro que nunca mais pagaram…) para inteirar a passagem até Júlio de Castilhos. Pegaram o Buzu às 23:00h, chegarma na cidade sem saber onde era a festa (tudo bem que a cidade é um “ovo” e devia ser a única festa da cidade…), foram perguntando e passaram a conversa no porteiro para entrar de graça.

Passaram o resto da noite no hotel com a gente (um frio! Tinha do homem duro de frio lá fora - uma estátua, quase matamos o Claiton por esta bobagem, fazer todo mundo sair da cama pra ver…). Tivemos que pagar a passagem delas na volta, eu emprestei minha jaqueta pra Paola (que cavalheiro, óóóóó…)

Esta é a sem juízo/siso da Paola. Fiz um samba, samba/pagode é a cara dela. Fiz uma letra que mostra minha influência do Chico Buarque, com muitas rimas curtas numa métrica justinha (mas não perfeita), gosto muito. A hamonia é uma das poucas que fiz em tom menor (acho que tem apenas uma outra, que não tenho mais a letra). Aqui meus estudos com “Harmonia e Improvisação” do Almir Chediak estão bem presentes: todos os acordes da escala de Bm foram utilizados. Como já disse outras vezes, o conhecimento nos dá recursos, soluções, caminhos.

Quando fiz uma fita com minhas músicas em 1997 fiz um arranjo com duas vozes que achei muito legal… vou tentar repetí-lo em mp3.

Aquelas Histórias (Memórias do Kao)

Segunda-feira, 1 de Outubro de 2007 -- em Mais do que tudo
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Rafael Goulart (09, Abril, 1994)

Quando fui morar em Cacequi, minha turma restringia-se a 4 pessoas: o Solon, o doido que dividia o apartamento comigo (entramos juntos no Banco do Brasil), o Ducos (que era pra dividir o apartamento também, mas resolveu ficar em hotel), e os irmãos Carlos Alberto (Kao) e Nésio. Estes dois eram agrônomos/engenheiros agrônomos e através de sua pequena empresa - a Planter - prestavam serviços aos arrozeiros da região, ferozes no seu fusquinha. Por isso circulavam lá pelo BB. Nésio era mais novo e mulherengo; Kao era era mais velho, casado, porém estava lá trabalhando longe da família, a Marucha (sua esposa) e filhas.

Várias vezes nos reuníamos na Planter para comer um arroz de “China Pobre” (arroz com lingüiça) magistralmente cozido pelo Nésio. Eu o Ducos tocávamos MPB, bossa nova (ele era um colecionador) e mostrávamos nossas músicas (Ducos também compunha). O Nésio por vezes também desempoeirava sua gaita ponto, era muito bom. Bem lembro de uma vez que o Lambari (cantor da região, que voz belíssima!) esteve lá conosoco e eles tocaram “Percanterio” do Elton Saldanha… putz, que bons momentos passamos isolados naquele fim de mundo, todos querendo estar cada qual na sua terra, mas curtindo os amigos novos que encontramos. Pouco tempo depois fiz uma música citando esta turma, Vou Pra Santa.

Mas agora me detenho no Carlos Alberto, ou Kao. Figura memorável! Um copo e um maço de cigarros eram suficientes para uma noite de conversas filosóficas: “O que seria do azul se não fosse o amarelo?” Era adorável ao contar suas histórias (eu é quem tinha mais paciência para ouvir…), que sempre davam voltas e mais voltas, e mesmo a mais simples tomava contornos poéticos, verdadeiras epopéias… Três delas, de três fases de sua vida, registrei nesta música. A mais bonita é a última: estava num fim de baile, e, naquela última volta, encontrou um grupo de garotas (“oásis de mulheres” nas suas palavras), pediu para dançar com a mais bonita e… era “Marucha”, com quem se casaria e teria suas filhas.

Tive a feliz oportunidade de tocar esta música para seu pai, que ficou encantado e chateado - em função da referência à bebida.

Kao disse-me algo certa vez que guardo até hoje: “As músicas estão no ar. Algumas pessoas, como você, tem o dom de captá-las e trazê-las para terra. Mas, se você não fizer, outro com o mesmo dom vai acabar fazendo.” As palavras não são bem essas, mas essa é a idéia. Muitas vezes tenho a impressão de que meu amigo Kao está completamente certo.

PS: Um conhecida um dia ficou encantada com minha capacidade de contar histórias. Eu falei para ela contar as suas, ela respondeu que não tinha histórias para contar, que eu tinha vivido muito mais. Então lhe respondi: você tem histórias, só acha que não vale a pena contá-las.