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QUE SAIA!

Sexta-feira, 1 de Agosto de 2008 -- em Poesias e Textos
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Rafael Goulart - 24jul2008 00:10h

Ás vezes é tanto pra sair
Que não sai
Os poros, a boca, todas as aberturas
E nem que à faca abríssemos um buraco
De todo nosso tamanho
Ainda seria pequeno
Pra sair

Talvez por isso,
É, talvez seja por isso,
Que trancamos
Como medo de, ao sair,
Explodirmos
Nos expormos
Nos fragilizarmos

Às vezes deixamos sair um pouco
Mas seria este pouco o mais importante?
O essencial?
O suficiente?
O resto, o que fazer com ele?
Deixar dentro de nós?
Apodrecendo, deteriorando,
E nos intoxicando de dentro pra fora?
Deixar que nos corroa até à morte
Mesmo uma morte apenas interior
E vagar feito zumbis
Entre outros tantos

Não!
Não!
Não!
Mil vezes não!
Que saia, que exploda!
Mas, que ao explodir,
Que me espalhe pelo mundo!
Espalhando minha voz,
Meu canto,
Minha palavra,
Meus olhares,
Meu amor…

E que eu viva assim
Aberto,
Desnudo,
Mas viva!

Não!
Não!
Não!
Mil vezes não!
Não quero morrer com tanto
Tanto pra dar
Tanto pra dizer
Tanto pra ser
Não morrer
E continuar perambulando

Quero ser, estar, viver,
Aqui, agora
E para sempre
Quero continuar
Para todo sempre
Sendo parte de tudo
E de mim mesmo
E que tudo que tenho
O tanto que tenho
Não seja apenas meu
Mas de tudo
E de todos

Sim!
Sim!
Sim!
Sim, quero ser, estar
Viver
Aqui, agora
Tanto quanto
Me for possível

Portanto…
QUE SAIA!

Palmas, Salão do Livro e o Teatro Mágico

Terça-feira, 13 de Maio de 2008 -- em Poesias e Textos
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Voltando de Palmas, Tocantins, onde fui assistir ao show do Teatro Mágico acompanhado de Mag(nólia) e da Alana (que entrou de gaiato mas garantiu nossa hospedagem “digrátis”), tinha a intenção de falar do show e o quanto seria maravilhoso. Mas não dá pra falar disso apenas - apesar do show ter sido realmente muito legal. A experiência foi maior do que isso…

Bom, começo pela cidade. Conheci Palmas de passagem em janeiro, fiquei duas horas de madrugada na rodoviária aguardando o ônibus para Barreiras (vindo de Balsas no Maranhão). O que senti daquele pequeno translado de ônibus é que a cidade era um lugar onde tudo era longe, ainda com um monte de coisas a construir.

Palácio de Governo

Isto não é equivocado. Realmente, uma cidade planejada, tudo longe… mas em grande parte plana, com coisas bonitas, e num passeio com nosso anfitrião Mauro (que gentilmente deu uma de cicerone e mostrou até o outro lado da represa) pude ver que é uma cidade cheia de atrativos, arborizada, com um trânsito fluente (que vai permanecer um bom tempo por conta das avenidas largas e bem planejadas)… uma capital super agradável. Agora… Quando eu e Mag fomos achar o local do Salão do Livro, onde seria o show do Teatro Mágico… aí nosso queixo caiu. Que local lindo a praça dos Girassóis e todos os edifícios do governo tocantinense, jardins cuidados… o palácio em frente ao Salão do Livro é maravilhoso.

Salão do Livro Tocantins

Ah… o Salão do Livro. Mag ficou feliz de que fosse um evento desses, ela adora, eu também. Mas… talvez para os habitantes da cidade já haja o costume, mas para quem vem de fora… a estrutura impressiona e MUITO. Montada exclusivamente para o evento, um imenso pavilhão em forma de toldo, climatizado, com piso de borracha, praça de alimentação, estandes e mais estandes, vários shows e palestras gratuitos, tudo NO HORÁRIO, nenhum tumulto… várias coisas legais acontecendo, espaço para crianças, espaço para adultos, discussões…

Homem Sovaco

Depois de assistirmos ao show do Teatro Mágico circulamos pela feira e tentamos entrar no espetáculo do Casseta e Planeta em vão - uma fila imensa não nos deu chance. Continuamos então passeando entre livros, nos deleitando e resistindo à tentação de acabarmos com nossas inexistentes economias em tantas tentações literárias. Mas também passavam piratas, moças com vestidos diferentes, para apresentações infantis. Eis que passa um rapaz numa malha vermelha com um capacete prata lembrando o Ultramen. Com um “S” no peito. O parei e perguntei quem era. “Homem Sovaco”, me respondeu. Retruquei: uai, disfarçado de desodorante (o capacete só me fazia pensar nisso…) “Homem Sovaco”, me retrucou. Mais adiante tirei uma foto dele, que gentilmente fez pose de super-herói.

Ainda tive oportunidade de parar num estande de “tudo por três reais” e ao ouvir o comentário de um rapaz sobre uma revista TEX tive a agradável oportunidade de bater um papo sobre Tex, Kit Carson e o resto da “gangue”, além de relembrar o inigualável Groo (site oficial e na wikipedia em português). O rapaz “herdou” revistas do pai e do avô e falava entusiasmado… nossa, boas lembranças.

Cansados, sem possibilidade de assistir o Casseta e Planeta, entramos no “café cultural”, um ambiente bem no meio do salão, isolado acusticamente, todo em madeira, com uma platéia e um palco. Entramos na expectativa de descansar ouvindo uma música, mas estava passando um filme… estranho… até que percebemos que eram diversos trechos de filmes onde se contavam histórias. Olhas na programação: “Café Literário Grego”. Hum… Era o início de uma mini-palestra (ou o final…) de um rapaz de São Paulo que faz um trabalho de contação de histórias em hospitais. O que parecia um chato evento cabeça mostrou-se um momento muito agradável com um contador de histórias (Ilan Brenman)… ele falou de uma experiência muito legal num hospital de São Paulo onde ele e voluntários contam histórias para recém-nascidos e os resultados positivos disto… e então foi contar a história da Odisséia, coisa que eu adorava na juventade apesar de um tanto esquecida. O jeito gostoso e “moderno” de contar fez-me ter vontade de ler novamente.

Café cultura 01

Café cultura 02

Muito legal. E tudo terminou com um pocket show de uma cantora chamada Juliana Maia… fiz questão de ver de perto o percussionista que tocava um cajón (eita, precisa arranjar grana para comprar um…), ele tinha uma mal-formação numa das mãos, o que não o impedia de segurar com competência a percussão do pequeno grupo. Que também tinha um violinista excelente, além da agradáve voz da protagonista. Outra boa surpresa.

Comendo Churros

No final, ainda pude curtir um churros (não é como os de minha terrinha Santa Maria, RS, mas deu pra matar a saudade). Ainda dá para curtir se você estiver lá ou na região. Veja a programação no Site do IV Salão do Livro de Tocantis (de 09 a 18 de maio).

Ok, agora vamos ao Teatro Mágico.

Eu e Mag filmamos, tiramos fotos, dançamos… nos deleitamos com os acrobatas… com o percussionista traduzindo trechos do show em Libras… com o entusiasmo de pessoas que nem sabiam o que iriam assistir… com o os músicos andando no meio do público… em ver tanta gente jovem curtindo algo tão bom… um fã clube pequeno e vibrante juntou-se a várias outras pessoas.

Uma coisa engraçada é que em alguns materiais de publicidade o espetáculo constava na programação infantil (nada demais… afinal as crianças que foram adoraram).

Mas o mais agradável foi depois do show.

Apesar de eu não ter perfil de “tiete” (e nem perto daqueles adolescentes naturalmente enlouquecidos com o pessoal da trupe) queria tirar algumas fotos (mas não comigo, não tenho esta preocupação) e, quem sabe, conversar com os membros da trupe. Bom… eles saíram um a um, aos poucos (atitude sábia). Assim, quando o povo terminava de sugar um, chegava o outro, até que, claro, por último, chegaria o Fernando. Fui tirando fotos deles com os outros, sem atrapalhar a tietagem, até que consegui conversar com o tecladista. Extremamente simpático - aliás, TODOS. Ele comentou que o Fernando ficava sempre até esvaziar, então quem tivesse paciência poderia ter mais tempo. Enquanto esperava, acabamos eu e Mag puxando papo com um senhor de cabelos grisalhos, camisa azul, com um jeito meio estupefato… seu Antônio, de Santos, que estava a trabalho na cidade e entrou por acaso no Salão do Livro e ainda mais por acaso no show do Teatro Mágico. Ele comentou:

Teatro Mágico - Seu Antônio, Gabi e Rafael

“Quando vi aquele povo pintado pensei: poxa, entrei aqui para ver palhaçada… mas quando os vi recitando Fernando Pessoa pensei: palhaço não fala em Fernando Pessoa! E fiquei, e me encantei, eles são fantásticos, acabei comprando um CD, peguei autógrafo, nunca me vi fazendo isso!”

Isto é o que causa o Teatro Mágico.

Com o esvaziamento do pessoal, tivemos contato com Gabi, a acrobata. Absurdamente simpática, nos deu atenção, conversou com seu Antônio, que ficou visivelmente encantado, tirou foto conosco (Mag me convenceu a tirar aquelas fotos clássicas de tiete), e depois ela foi dar atenção a uma criança que estava com o rosto pintado (descobri depois que estavam pintando o rosto das crianças no Salão do Livro, muito lindas). Então pudemos falar com o Fernando, uma tranqüilidade, contei a ele que estive na rádio FM em minha cidade dois dias antes e cantei ao vivo uma música do Teatro Mágico, me perguntou qual é, disse que tinha um site com minhas composições e ele disse: “Precisamos trocar esta figurinha…”

Teatro Mágico - Seu Antônio, Gabi e Rafael

Tiramos fotos “tiete-style” novamente, e então a sensação de que tudo valeu a pena veio: eles são o que são no palco, e fora dele. Todos. Apesar da atenção centrada naturalmente em Fernando, “cacique” da tribo, percebe-se nos arranjos (diferentes do que ouvi em todas as fontes que tive acesso) que são uma irmandade aberta, perguntam o que cada um achou, o que prendeu ou chamou a atenção, ou o que mais se gostou… Nota-se nos olhos de TODOS a satisfação em atender, conversar, trocar idéias.

Sei que são pessoas comuns, com defeitos, que vão ao banheiro, mas deixam a gostosa sensação de que ainda vale a pena lutar por boas causas…

Acho que os fãs terminaram o espetáculo da forma mais adequada: um coro de “obrigado, obrigado”.

Obrigado, Trupe do Teatro Mágico.

Não Sei

Domingo, 20 de Abril de 2008 -- em Poesias e Textos
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Rafael Goulart - 19abr2008 00:30h

Descobri, estupefato
Que já não sei

Não sei se leio a bula
Pois se leio
Não sei se tomo o remédio

Não sei se tomo banho
Pois se tomo
Não sei se lavo a alma

Não sei se lavo a louça
Pois se lavo
Não sei deixar de sujá-la

Não sei se ouço música clássica
Ou se ligo o rádio

Não sei se leio uma enciclopédia
Ou um almanaque

Não sei bem o que penso
Logo, não sei bem como existo

Não sei de tudo
Mas também não sei de nada

Não sei dos outros
Mas também não sei de mim

Não sei da vida
Mas também não sei da morte

Descobri, e ainda mais estupefato
Que nunca soube de nada enfim

E, a bem da verdade
Não saber não me desmerece

Já nem querer saber
Que nada se sabe
Isto sim é crime
Hediondo e inafiançável

Pois o verdadeiro aprendiz
Só nasce e cresce
De sua própria ignorância

Descobri então
Ainda mais feliz que estupefato
Minha ignorância

Tempo de Espera

Sexta-feira, 11 de Abril de 2008 -- em Poesias e Textos
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A vida moderna nos fez desaprender a esperar. O ritmo louco, os prazos curtos, a moda ou a imposição de aproveitar a vida ao máximo, o “curtir cada instante” nos acelerou tanto… que esperar tornou-se sinônimo de perda de tempo, de passividade. Intervalos entre atividades são preenchidos com outras atividades. Ter uma manhã livre, um tédio, principalmente se estivermos “presos” ou ilhados.

Hoje me senti assim. Vim para Luís Eduardo Magalhães considerando um ritmo em que não teria tempo livre, e na manhã de sábado iniciaria um curso. Mas adiamos seu início para a próxima semana. E agora? Para evitar carregar peso, não trouxe nenhum livro ou material para estudar. No início, bateu-me o “pavor”; depois acabei aceitando a situação. Assisti TV até ter sono, despertei às 8h para não perder o café do hotel. Depois, agüentei o terrível narrador da F1 (nem vou colocar o nome para não fazer propaganda dele) e zapeei para a TVE Bahia, onde assisit dois programas que já havia visto “por cima” e então pude assistí-los integralmente, pois não tinha nada mais o que fazer…

Mesmo assim, ainda havia um outro “problema”: o que fazer depois do almoço? 1h, 1:30h de espera, sentado num restaurante. Almocei com calma (raro nestes dias…), peguei um papel e pus-me a exercitar minha (in)capacidade de desenho (adoraria desenhar, mas não é minha praia). E então restou-me escrever. Componho escrevendo no papel, mas textos… a idéia de ter que passar a limpo me cansa… mas, com tempo “sobrando”…

Acho que desta experiência, que é diferente de estar sozinho apenas mas no seu meio, entre seus livros, músicas, computadores, tirei a seguinte lição: esperar é estar na obrigação de fazer companhia para si mesmo.

E correndo o risco de descobrir que não somos assim tão boa companhia.

Entre madrugadas e manhãs

Quarta-feira, 19 de Março de 2008 -- em Poesias e Textos
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Rafael Goulart - 19mar2008 - 17:19h

Amigo, me ajude
Pois sou cheio de dúvidas
E disso tenho certeza
Perseguido por escolhas
E não me resta outra opção
A não ser a cada momento
Enveredar-me por um caminho
Deixando outro… pelo caminho

Amigo, veja só
Se me é merecido
Ser obrigado a optar
Pelas madrugadas
Ou pelas manhãs
Ou se curte as madrugadas
Ou acorda-se cedo
E curte-se as manhãs

Quem cedo madruga
Não deleita-se na madrugada
Quem enrrosca-se noite adentro
Não desperta para ver o sol nascer

(Descarto aqui os boêmios
- afinal, meros mortais labutam…)

Aproveitar a inspiração da madrugada
Ou o canto matinal dos pássaros?
A calmaria que acalenta romances
Ou a energia renovada do amanhecer?

Não, sei meu amigo
A cada dia alterno escolhas
A cada fase, a cada momento
De uma ou de outra me alimento
Ora da luz, ora da escuridão
Ora do início, ora do fim
Ora do nascer, ora do morrer
Nos dois um pouco de mim reside

Mas, amigo
A única síntese encontro
Na mais doce companhia
Naquela que me tira o sono
E me desperta em alegria

Sete linhas sobre saudade

Terça-feira, 18 de Março de 2008 -- em Poesias e Textos
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Rafael Goulart - 18mar2008 23:12h

Minha saudade por ti é espontânea
Nasce da brisa, do silêncio
Do nada ao meu redor
Vem do momento que começa
No princípio da tua ausência
E termina apenas e apenas
Quando entras pela porta

A flor em meu bolso

Segunda-feira, 17 de Março de 2008 -- em Poesias e Textos
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Rafael Goulart - 17MAR2008 04:20h

Olhei o jardim
- tantas flores!
Cada qual única
Mesmo que semelhantes
Mesmo que quase idênticas

Todas flores, todas delicadas
Todas belas, todas frágeis
Todas encantadoras, mesmo ocultas
As flores, todas elas
Em seus aromas e cores
São belas por serem flores

Algumas não são percebidas
Outras, as preferidas
Mas qualquer delas
Regada, adubada, admirada
Florece, fortalece, enobrece
Junto com seu jardineiro
E para si
E para ele

Mas, para meu desalento
Meu paletó só tem um bolso
E nele, apenas uma posso levar
Escolher qual, um dilema!
Sempre carrego a duvida:
Será que deixei no jardim
Aquela que foi feita para mim?

Olhos no Espelho

Segunda-feira, 17 de Março de 2008 -- em Poesias e Textos
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Rafael Goulart - 17MAR2008 04:00h

Ousei pedir um conselho
A ninguém mais, ninguém menos
Que a este cara do espelho

Depois de tanta estripulia
Não me restou alternativa
A não ser mirar em seus olhos

Omitir, mentir, enganar-se, enganar
Até fácil diante de outros olhos
Diante destes, inquisidores
Boa alma se atormenta

Mas assusta pensar que existem almas
Cujos olhos nos espelho não afetam
Destas, imunes até a si mesmas
Mantenho prudente distância

A história do “Feio”

Domingo, 16 de Março de 2008 -- em Poesias e Textos
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Nunca gostei de ver animais presos. Acho que é uma extrapolação de minha índole livre de sagitariana alma: quero que todos sejam livres como desejo ser. Mas adoro animais, gosto da honestidade de seus sentimentos e instintos. Nunca se pode esperar que um cachorro seja diferente de um cachorro, um gato diferente de um gato, por isso eles são quase matemáticos: trate-os bem e eles nos dão retorno. Se eles revidam, algo os fizemos…

 

… quem dera fosse assim com nossa “raça animal humana”…

Mas a história não é sobre um animal qualquer, mas a história do “Feio”. Gatos e cachorros ficam conosco por vontade em contrapartida aos nossos cuidados (interesseiros… mas nos dão retorno!). Mas pássaros têm índole da liberdade, sua vida não cabe numa gaiola. Nossa vida não caberia. Não consigo enxergá-los presos, é como se visse a mim mesmo dentro daquelas grades. Um canto triste… Nunca me vi criando pássaros em cativeiro, mas adoro vê-los, é um privilégio ainda morar num lugar em que – por duas árvores existentes na frente de meu apartamento – ainda posso acordar com o cantar destas criaturas adoráveis.

Nossa… ainda continuo divagando e não falo do “Feio”… pois bem, alguns anos atrás uma amiga nos trouxe da roça dois pequenos (mesmo!) periquitos que haviam caído do ninho. Meu ex-sogro queria um e nós “herdamos” o outro, apesar de que eu fiquei meio num dilema… de qualquer forma, os bichinhos iriam morrer sem cuidados. O que de fato aconteceu, um deles não resistiu, e ficamos cuidando do outro, à base de polentina umedecida que de início dávamos de seringa, como se fóssemos sua mãe. Ele veio numa gaiolinha artesanal, que deixamos como seu ninho, mas de porta sempre aberta, só no início, à noite, deixávamos fechada com medo que saísse e se machucasse.

O problema era achar um nome para aquela criaturinha. Nada charmosa, diga-se de passagem: pelado, esquisito, desengonçado… quando começaram-lhe a nascer as penas, então, ficou um bicho muito feio… e começamos a chamá-lo de feio, feio… até que este virou seu nome: “Feio”. Em pouco tempo este nome mostrou-se inadequado, mesmo que para nós estivesse recheado do mais puro carinho. Conforme as penas verdes tomavam-lhe conta aquele pequeno bichinho mostrava-se cada vez mais belo.

Já não precisávamos mais alimentá-lo com a seringa, numa pequena tampinha colocávamos sua refeição… e ele comia tranqüilamente. Como no seu canto na pequena bancada da cozinha ele mostrava-se desconfortado enquanto almoçávamos, eu o colocava na mesa, com seu pratinho, como “parte da família”. Sim, às vezes um pouco arteiro bicava a comida do meu prato, mas depois de alguns “puxões de orelha” voltava para seu pratinho.

Conforme foi criando habilidade com as asas também passou a escalar as coisas e em principal nós mesmos. Ficava em meu ombro mas – não contente – subia em minha cabeça, o que achava o máximo, mesmo quando eu estava almoçando. Uma coisa deliciosa que ele fazia era quando eu deitava na rede, um pouco todo dia, e ele subia até meu peito e ficava brincando em meu cavanhaque. Se perdia, como se fosse encontrar algo para comer ali. E eu curtia aquele singular “cafuné”.

Não demorou muito para que estivesse forte para pequenos vôos, o que aumentou sua ousadia: quando eu chegava em casa, não importava onde estivesse, atravessava a casa para pousar em meu ombro. Um carinho extraordinário. Fora uma vez em que, cansados de suas estripulias na mesa, o colocamos para almoçar no seu canto. Não adiantou: ele voou para a mesa e caiu na travessa de feijão! Uma bagunça!

Mas… alguns amigos nos falaram: se não cortar a ponta das asas, ele vai embora… Não teríamos coragem. Se fosse para ficar conosco, que fosse em liberdade. Se seu instinto falasse mais forte e ele fosse embora, que assim fosse, pois este era seu desejo.

E assim foi. Na frente de nossa casa haviam algumas árvores, e alguns periquitos apareciam por lá. Um dia o “Feio” saiu andando pela lateral da casa e não voltou mais. Foi um misto de tristeza e alegria… tristeza pela sua ausência… felicidade pela sua existência, por ter compartilhado o momento mais bonito de sua vida conosco, e por nos permitir ser uma mão que o ajudou a seguir seu destino glorioso – ser livre.

Até hoje, passados 5 ou 6 anos, não lembro bem, ainda lembro do “Feio”. Acho que em menos de dois meses conosco (não foi mais do que isso) ele nos ensinou todo ciclo da paternidade/maternidade: Da indefesa forma de vida que em tudo depende de nós a um ser maravilhoso que alça vôo e nos “deixa pra trás”, repletos de saudades e boas lembranças.

Obrigado por toda beleza de suas lições, meu querido “Feio”.

Toda criança merece um pai

Quarta-feira, 12 de Março de 2008 -- em Poesias e Textos
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Rafael Goulart - 12mar2008 02:21h

Toda criança merece um pai
Um pai pra lhe ver nascer
Pra cuidar de sua mãe
Pra lhe ver crescer

Um pai pra lhe ninar no colo
Pra adormecer junto na rede
Pra lhe contar histórias

Toda criança merece um pai… criança
Que brinca, que paga mico
Que lhe ensina a andar de bicicleta
Que corre junto da chuva… e na chuva

Um pai pra andar de mãos dadas
Pra levar na escola
Pra dar um presente no dia dos pais

Toda criança merece um pai… sábio
Que lhe oriente o caminho
Que lhe imponha limites
Que lhe ensine o valor do trabalho… e do amor

Um pai pra chamar de “papai”
Ou simplesmente de “pai”
E quem sabe um dia de “meu velho”…

Não apenas uma “figura paterna”…
… mas um pai…
… alguém pra chamar de “pai”