por Rafael Goulart (2005)
“Vou te contar o que me faz andar, se não é por mulher não saio nem do lugar…” Assim começa a a música “Eu gosto é de mulher”, do Ultraje a Rigor, sucesso na década de 80. Suas palavras eram até um pouco grosseiras, ele mesmo se defendia: “Eu sou assim meio atrasadão, conservador, reacionário e caretão”. Mas, de qualquer forma, sincero. Nos últimos dias, fiz a várias meninas (chamo assim a todas as mulheres) a mesma pergunta: “Você acha que poderia inspirar uma música?”. Engraçado ver que as garotas com que me relaciono, quase todas, encabulam-se com a pergunta. Ainda não tive uma resposta do tipo: “Claro!”, talvez porque não tenha muito contato garotas arrogantes ou prepotentes. Talvez, no fundo, quisessem dizer que sim. Mas não se sentiram à vontade. Ou quisessem que fosse realmente verdade.
Fiz muitas músicas para várias meninas. Algumas, paixões, amores de minha vida. Outras, garotas que me encantaram. Outras ainda, amigas muito queridas. Mas deixe-me falar da primeira.
Marione era uma garota de uns 19 anos, eu tinha uns 16 na época. Era linda, encantadora, doce, simpática, atenciosa. Não me apaixonei por ela, apenas cheguei em casa e me disse: “Ela merece uma canção”. Fiz uma música chamada O meu sonho. Descrevia um amor platônico por aquela adorável criatura. Foi uma das primeiras músicas que fiz. Apesar disto, tive sorte de conseguir realizar um arranjo ao menos à altura da musa inspiradora.
Você bem que podia ao menos me notar
E desviar o olhar pra mim alguma vez
E poderia sem querer me acenar
Pra que eu tivesse a esperança de um talvez
(O Meu Sonho (1989))
Um tempo passou e eu, então com dezessete anos, numa parada de ônibus, a caminho de casa, deparei-me com Luciana. Cabelos lisos, negros, chanel. Pele clara. Um sorriso… não, O sorriso. Nunca soube sua idade, talvez 18 ou 19. Acompanhei-a junto com sua a mãe até a Universidade, onde realizaríamos o vestibular nos quatro dias seguintes. A vi mais uma vez apenas; mas ela não passou no vestibular e nunca mais a vi. Morava no Paraná. Meu encantamento foi fulminante. Não consegui me acalmar enquanto não fiz uma música para ela. Como tinha esperança de gravar a música e um dia ela ouvir no rádio, assim começava:
Ligue o rádio e ouça esta canção que eu fiz pra ti
Um dia eu sei que vou de novo ver você sorrir
Certeza de ficar apaixonado outra vez
Isto não fica assim, por que você fugiu de mim
(Trouxa Apaixonado (1990))
Nos meus arroubos de preciosismo, fiz da música um acróstico: as primeiras letras dos versos formam o nome dela (LUCIANA EMER) e do estado onde morava (PARANA). Como eu podia ser tão chato??
Um ano se passou até conhecer Maria José. Viajei à Paraíba para visitar meu irmão, e esta amiga de minha cunhada fisgou-me de maneira extraordinária. Um maravilhoso sonho de verão (seguido, tempos depois, por um pesadelo em quatro estações, hehehe) que deixou-me completamente enebriado. De todas as músicas que compus, talvez esta seja a que possue o caráter mais extraordinário. 20 dias após deixá-la a 3000Km de distância, estava eu tentando dormir quando tive o ímpeto de pegar o caderno. Escrevi a letra – com exceção de um trecho diferente no meio – sem nem ao menos parar para pensar. Estava pronto dentro de mim. Mas não havia música. Peguei o violão e o primeiro acorde que me veio, a primeira frase que cantei eram perfeitos para a letra. Estava pronto dentro de mim. Achei a música meio monótona, repetitiva, então quis fazer uma parte um pouco diferente. Escrevi de uma só tacada, e a melodia, os acordes, vieram atrás. Justa. Perfeita. Medida. Para não dizer que não a corrigi, troquei quatro palavras após terminar, não haviam ficado bem. E só.
Me sentia ao mesmo tempo enebriado pela paixão e desesperado de saudade. A canção reflete isto:
Como posso chorar
Se só há bons momentos pra lembrar
Como posso chorar
Se alguém tão longe a me amar
Como posso não chorar
Se sinto meu peito apertar
Como posso não chorar
Se sinto a saudade me machucar
(Só Porque Estou Longe de Você (1991))
Nunca toco esta música diferente, ou mudo sua forma de cantar. Ela nasceu assim, é para ser assim. Me arrepio às vezes quando lembro disto.
Mais um tempo passa. Fiz uma música que não sabia para era. A música era Mais Ninguém (1993). Eu dizia a uma menina que estava aguardando que ela estivesse pronta para que ficássemos juntos. Me senti um tanto frustrado, pois achava que a música era solta, não tinha foco em ninguém, não era dedicada a ninguém. Sem motivo para existir. Muito tempo depois é que fui entender que ela tinha uma dona, tinha uma inspiração, e eu não entendia, não estava preparado para entender meus próprios sentimentos. Esta música era para Mariana.
Eu vou fazer, eu vou fazer uma canção
Pra quando você me tiver no coração
Pra quando você estiver desimpedida
Pra quando você estiver de bem com a vida
Pra quando você solicitar minha carícia
Pra quando você sorrir-me às vezes com malícia
(Mais Ninguém (1993))
Tempos depois fiz um sambinha para minha amiga Paola. Daquelas de parar o trânsito, impressionantemente charmosa, era uma das irmãs que não tive. Mas aprontava cada uma… Samba para Paola (1994) é um puxão de orelha.
Este seu comportamento
Sempre ao sabor do vento
Faz a turma pirar
Causando mil prejuízos
Não por falta de aviso
Que os amigos tentam lhe dar
Mas quero lhe ver bem solta
Balançando a roupa
Quando a banda cantar
Que esta minha escolha tem um quê de tola
Esta minha escolha por você (Paola!)
(Samba para Paola (1994))
Logo depois de começar a namorar Mariana fiz uma música para Daniela, outra das irmãs que não tive. Ela morria de ciúmes da Paola, pois eu tinha feito uma música para ela e Dani não tinha. Para evitar brigas, fiz Loirinha. Uma das minhas músicas mais diferentes, dançantes, e com uma letra com ligeiro duplo sentido, como se eu quisesse dar uma cantada na Daniela (talvez quisesse…).
Ouvi falar, Loirinha
Da inveja que tens porque
Cantei amigas minhas
Mas jamais cantei você
(Loirinha (Que se Dane) (1994))
Muito divertido. Dani guarda até hoje a fita que mandei para ela – para seus amigos, sou o “amigo da fita”. Grande Dani.
Mariana. Mariana é um caso à parte em minha vida. Um terço de minha vida passei ao seu lado, várias músicas fiz para ela. A primeira, como falei acima, nem mesmo eu sabia que era para ela. Era uma grande amiga, o que gerou grandes revoluções internas (em mim e nela) para que conseguíssemos namorar. A música que fiz para esta ocasião contém os versos que considero os mais bonitos que já fiz, e talvez nunca mais consiga fazer algo igual. Costumo dizer que se morrer, ter feito estes versos vale minha existência.
Muito do que sempre um dia
Encontrar em alguém queria
Tinha… muito a ver
Com o que encontrei surpreso
Quando encontrei-me preso a você
(Dissonâncias (1994))
Talvez possa parecer pedante, presunçoso… não lembro como fiz esta música, lembro do dia, da hora… da louca vontade que tive de mostrar aos amigos – lembro de meu amigo Cao falando entusiasticamente: “Estás apaixonado! Estás apaixonado!” e me aplaudia elogiando a beleza e a força da música. Vale realmente tanto? Cumpriu seu papel, e foi decisiva para que a história com Mariana não tivesse passado de uma simples frustração.
Na alegria, na felicidade do namoro, todo final de semana voltava à minha cidade natal para encontrá-la. Minha cidade natal, Santa Maria, era tudo que eu queria no final de semana. Apesar de meus amigos na cidade em que trabalhava quererem que eu ficasse lá para “fazer festa”, eu nem exitava!
Não tem baile, nem festa, nem jantar
Sexta-feira nem pense em convidar
Não me importa se é canja ou caviar
Vou pra Santa Maria namorar
(Vou pra Santa (1994))
Um samba alegre, divertido… lembro de um amigo entusiamado dizendo: “Parece que estou ouvindo esta música na rádio, as pessoas cantando…”
Mas era tempo de haverem dificuldades. Mariana transferiu-se para a Bahia, e eu fiquei tentando transferência para lá. Fiz três músicas para ela neste período. A primeira foi Estar na Bahia (1995), na mesma semana em que ela partiu.
Parecer estar
Na Bahia
Por um dia
Descobrir se Cabral descobriria
Minha especiaria
Que na Bahia
Foi morar e deixou minha cama
Vazia
(Estar na Bahia (1995))
Ainda estava meio atordoado, pois do convite até sua partida foram apenas 25 dias. Mas a próxima música era mais melancólica, mais profunda, Sobre as Mulheres (1995).
Sobre as mulheres queria falar
Da que tem estado ao meu lado
E que me faz sonhar às vezes acordado
Que nem precisa estar presente sempre, não
Pra eu me acalmar, fingindo ouvir seu coração
Que me faz acreditar em mim
Que é meu crescimento
Enfim
(Sobre as Mulheres (1995))
Pouco tempo depois, após voltar de uma visita, fiz Enquanto o Tempo (1995), uma música que nunca gostei, nunca consegui deixá-la redonda. Foi muito dura. Muito triste.
Enquanto o tempo faz saudade aumentar
Adormecer pior só que acordar
Sonhar lhe ter ao vivo e a cores
Não poder tocar
Lhe procurar em vão nos cobertores
(Enquanto o Tempo (1995))
Após ela, veio uma longa pausa. 9 anos. Mariana já não estava comigo, nos separamos. Eu estava muito, muito, muito, abatido. 15 dias após a separação fui “atropelado” por Valéria, um garota que era o sonho de todas as noites de metade dos homens da faculdade (a outra metade sonhava de dia…). Na verdade, ela só passou feito um turbilhão numa noite, na casa do amigo onde passava aqueles duros dias. Mas foi o suficiente para deixar algo muito importante para mim. E eu precisava agradecê-la. Fiz então Vendaval e Carnaval (2004), em alusão a seu jeito de passar “voando” e sua alegria contagiante.
Foi um vendaval
Foi um temporal
Que passou por mim
Foi um carnaval
Foi um riso tal
Que alegrou-me assim
E eu nunca pude agradecer
A força que ela me deu
E nem percebe o que é ter
Um simples momento seu
(Vendaval e Carnaval (2004))
Como era um agradecimento, precisa mostrar para ela. Mas não tinha intimidade, e nem estava bem o suficiente para isto. Escrevi uma carta, gravei em CD e pedi para um amigo em comum entregar. Acabei esquecendo disto, e dias depois ela me parou no corredor, completamente atordoada, nervosa, me abraçando e dizendo que ficou encantada, encabulada, que mostrou para todo mundo, que ouvia o tempo inteiro,… Fiquei estupefato com sua reação… O engraçado é o tema da letra e da melodia me vieram quando estava saindo para faculdade e não tinha tempo para continuar. Quando voltei para casa… Havia esquecido! Que desespero! Mas alguns dias depois parei e fiz um esforço, e tudo voltou, então terminei a canção. Ufa!
Chegando perto do dias dos namorados, senti-me só e usei minha imagem de Valéria para fazer Dia dos Namorados (2004). Não considero uma grande canção, apesar de alguns versos até serem inspirados.
Ah, senti você passar
E por um instante deixei de respirar
Foi o seu perfume
Que distraiu-me a atenção
Já é seu costume
Deixar homens sem direção
(Dia dos Namorados (2004))
Algum tempo depois, resolvi tirá-la da minha cabeça. Não tinha intenção nenhuma com ela, mas minha carência acabava por trazê-la sempre à lembrança. Resolvi “exorcizá-la” com uma música chamada Última Canção (2004) (bastante sugestivo, não é?).
Não vou mais cantar em vão
Esta é a última canção
Não vou mais sonhar com ela
Se não for lhe conquistar
Então vou me libertar
Abrir portas e janelas
Mas se ao ouvir esta canção
Algo tocar seu coração
Vou me chegar
Vou me instalar
Pra sempre ao seu lado
(Última Canção (2004))
Gosto muito desta música.
Apesar destas últimas duas músicas serem inspiradas na Valéria, não eram para ela. Foram mais para colocar para fora determinados sentimentos meus.
Dídima é uma garota muito, muito chata. Reclama de tudo, o suco está ralo, o dia está quente demais, a vida não presta… Havia levado um fora de um namorado, estava arrasada (e eu não muito diferente). Acabamos passando alguns momentos juntos, trocando as dores destes “amores perdidos” e algumas macarronadas. Um dia resolvi colocar estas nossas dores em forma de música, para consolá-la, Tempo Sabe o Que Faz (2004).
Eu conheço sua dor
Eu bem sei o que é estar sozinho
Depois de tanto ter calor
Não ter mais ninguém em seu caminho
O tempo passa mas não leva nossa dor
O tempo passa e não devolve nosso amor
Quem já teve amor perdido
Sabe o que tempo faz
Que o tempo sabe o que faz
(Tempo Sabe o Que Faz (2004))
Fiquei feliz por ela ter gostado. Ao menos de alguma coisa ela gosta… (tenho certa atração por pessoas chatas e ranzinzas, acho que não bato bem…)
Uma música que gosto muito mas que não fiz para uma garota em especial, Dúvidas (2004). Eu costumo dizer que esta música é para a “próxima”. A próxima garota por quem me apaixonar e que se apaixonar por mim.
Se eu pudesse já saber
Que sou o certo pra você
Que você vai me bastar
Se o que estamos pra sentir
Fosse nos fazer sorrir
E jamais nos magoar
Olharia pra você
Deixaria acontecer
O que a noite desejar
(Dúvidas (2004))
Um ano depois, a “próxima” tomou posse desta canção. Seu nome é Juliana.
A vida ficou corrida, deixei alguns meses compor de lado, mas de forma tranqüila. Conheci Rosane. Morena meio brava, mas muito doce. Canta maravilhosamente, tocamos juntos uma vez na faculdade. Ela tem 20 anos. Dela ouvi algo que me deixou muito triste, na verdade. “Perto de você, me sinto exatamente como você me chama: uma menina”. Mesmo assim, quando saiu de férias, voltou para sua cidade – Barra –, e me deu vontade de fazer uma música leve e descontraída sobre ela. Então nasceu o reggae Morena da Barra (2005).
Amigo fique atento
A história é complicada
A moça veio de muito longe
Haja estrada
Me disse que só veio
Pra estudar e tomar jeito
Que nada
E, eu, esperto
Não descuido se estou perto
Desta cilada
Perto da morena da Barra
(Morena da Barra (2005))
Acabei que ainda não tive oportunidade de mostrar a música para ela, só enviei um pedaço da letra via celular. Era para ser um forró (ela adora forró…) mas não foi assim que a música chegou, paciência. Conheci Esmeralda num curso que dei. Senti vontade de manter um contato mais estreito, mas sabia que ela era o tipo de garota que desperta ciúmes em minha ex-esposa Mariana, e deixei de lado. Até surgiu a oportunidade, um tempo depois, de fazer um projeto com ela, mas não vingou, e até foi bom, pois Mariana realmente iria sentir ciúmes. Mas Mariana e eu nos separamos, e a primeira pessoa que acabei encontrando foi Esmeralda. E foi a pessoa que eu precisava encontrar, pois ela precisava de apoio para algumas questões dela, e isto me ajudou a tirar um pouco o foco de mim, me sentir útil. E ela, apesar de ser meio doidinha (ela mesmo admite), me deu algo que eu realmente precisava: um lugar para ir, onde fosse sempre bem recebido, a qualquer hora, a qualquer momento. Sempre pus-me em débito de fazer uma música para ela. Mas nunca consegui sair do lugar (não adianta, não funciono assim). Mas depois de uma conversa em que dei uma “prensa” nela para que achasse ânimo para perseguir seus sonhos, acabei encontrando a inspiração para sua música. A música levou seu nome. Aliás, a única música em que faço menção ao nome da garota.
A esmeralda precisa encontrar
Uma mão carinhosa
Pra lhe lapidar
E toda pedra e cada pedra
É preciosa e tem seu brilhar
Seja qual for
(Esmeralda (2005))
Enfim, chego à última da lista. Uma coisa engraçada esta tal de Internet, agora tenho uma musa que sequer conheço pessoalmente! Silvana é minha arquiteta em crise existencial viciada em spinning favorita… Ainda acho impressionante como ela me inspirou a fazer esta música… Fiz uma “celularenata”, uma serenata por celular para ela… o frio da barriga nestas horas vale todo esforço. Engraçado, fiz a música com tanta força para uma garota que mal conheço e que talvez nunca conheça. Vai entender estes “poetas” doidos… Mas adoro esta música…
Mas foi quando vi você
Aqui, do meu lado
Se esforçando em não lembrar
Que o dia já lhe chama
Com sua mão a se enrroscar
Em meu peito
Me provando
Que é tudo fingimento
Fingi que sou tão forte sem segurar sua mão
Fingi que enfrento os medos sem seu colo
Fingi que sei viver na solidão
(Fingimento (2005))
Bom, como diria o Pernalonga, “That’s all, folks! (Por enquanto é só, pessoal!)”. Até a próxima canção.